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domingo, 10 de junho de 2012

Os velhos que teimam em passar


Vejo tudo, deste local onde me sento.
O gato que se lava, a chuva que tanto molha,
A pessoa que passa mais que duas vezes em frente à loja...
Vejo preocupações, observo tiques...
Ouço gritos, vejo raiva. Todos estes transeuntes...
Vejo-os de dentro para fora.

Nunca vi ninguém a observar-me
Tanto quanto observo a eles.
Aqui sou algo aconchegante,
Sou invisível.

Neste sitio onde me pouso,
está frio e brisa gelada.
O Inverno veio finalmente.
Em Portugal fez-se tardar.
O tempo já não é como era...

Vejo-os com casacos, chapéus de chuva,
Aflitos, rápidos, de olhos baixos.
A multidão que passa diante dos meus olhos
Está triste.
Será que os sonhos lhes morreram?
Ou já serão velhos demais para sonhar?
Os velhos de Benfica teimam em passar...

Passam com bengalas, andarilhos,
Chapéus efémeros, saias...
Faça chuva ou sol...
Eles passam...
Uma, duas e três vezes à minha frente.
Que farão para andarem tantas vezes por dia
Para a frente e para trás?

Questiono-me se assim serei
Quando não sair mais para trabalhar.
Inventarei eu compromissos?
Ansiedades para companhia?
O que serei quando o que quiser ser
Já tenha sido?

A vida esgueira-se entre os nossos dedos
Como se fosse água nas nossas mãos.
Ninguém gosta de envelhecer.
Digam o que disserem.
A vida é uma dádiva, um presente que
Não nos pertence nunca.
Ela ocupa-se de nós no momento em que
emergimos das águas...
E nós, ocupamo-nos de nós mesmos...

Sempre tive medo de crescer.
Em pequena cheguei a ter inclusive
Medo de envelhecer.
Nós não nos damos conta da semente frágil
Que somos na terra.

Lá de fora, afinal,
Alguém me olha.



2011
Diana Estêvão

Sentir

Senti-me em euforia,
Senti-me completa.
Perdida...
Senti-me repleta.
Sinto-me vazia...
Sinto-me desperta.
Sinto-me sem chão,
Sinto-me descoberta.
Sentir-me-ei dividida...
Morta,
Despida...
Desta veste que me conforta.

Ofélia Castro
2010

sábado, 19 de maio de 2012

Saber chorar

Saber chorar pode ser algo que se desaprende. Com a dor. A dor também nos seca.
Mais triste que não chorar, é querer e não poder verter aquilo que alivia o pesar.
E não basta recomendar beber muita água... porque o mal não está no que entra, mas no que não sai... Muito menos o mal está em algo tão material... como água... O mal de não chorar está em algo mais profundo. Libertar essa expressão liberta a tensão, talvez seja por isso que existe "chorar". Não sei... Mas...
Há pessoas que não sabem chorar. Nem por isso são más pessoas. Só são ainda mais tristes do que se chorassem.

Diana Estêvão

Traduz-me «saudade»


«Saudade»...,
Segundo a tua ausência,
Significa beber todos os dias
A dor de não te ver nem ouvir
Nem te ter, para me alimentar.
Significa,
Segundo o meu desejo de te possuir,
Enlouquecer todas as horas
Por não ter os teus lábios nos meus
Nem os meus olhos nos teus.

Diana Estêvão

«Saudade», a mais bela palavra Portuguesa

Traduz-me «saudade».

Eu poderia dizer I miss you, mas seria apenas sinto a tua falta... ou "te echo de menos"; "mi manchi", vermisse dich, tu me manques, あなたがいなくて寂しい (...) mas seriam expressões, com mais de uma palavra...!
Queremos uma só que tudo diga, uma palavra envolva esta imensidão de sentimento!



sexta-feira, 18 de maio de 2012

A balança

Se em ocasião te olho e te consigo ver,
Então reparo-te... como quem se delicia.
Estes suspiros são da tua autoria,
És o culpado dos meus sorrisos e desta alegria.
Tanto quanto és autor da ânsia e euforia...
E tanto quanto, infelizmente..., para mim,
És o tão capaz de me magoar,
Pelo que já experienciámos, sabemos que sim.
Porque eu deixei-me te amar.

A sós somos mais nós, sem ter que explicar.
Mas quando apareces assim...
Sem eu te poder pegar...
Desejo descer o pano com que faço
As nossas quatro paredes de amasso
E olhar-te nos olhos sem perguntar se posso,
Beijar-te meu amor... como no nosso regaço!

A sós és bem mais tu, mesmo que me digas que:
Não é bem assim...
Porque essa tua capa é demasiado crua...!,
Não me digas que é de mim!...,
Porque eu sou para ti mais nua do que
A tua verdade já alguma vez me foi...
Não me mintas... rapaz...
Porque me ensinaste mais que todos
Que amar com esta verdade...
Dá-nos a melhor felicidade e a mestra desgraça...
Mas..., desde que este tão doce alento
(Que me plantaste há muito tempo)
Seja mais abundante que estas lágrimas e noites
Que me tiras sem pedir permissão...
Então eu aceito continuar a amar-te.
Tudo porque eu te dei o meu chão.
Para não dizer o de sempre...
Porque esse que se diz que se dá...
Afinal fica sempre cá...

Ofélia Castro


Maio - 2012

terça-feira, 5 de julho de 2011

A silhueta



As silhueta acolhe-nos na sua sombra própria.
Normalmente tem uma beleza muito sua...
Não mostra cor ou padrão...
Não mostra sorriso ou perdão.
Só mostra os limites e
A linha que divide fundo e figura negra.

Consegue ser sensual e assustador.
Consegue seduzir sem mostrar o conteúdo,
Consegue ser bela sem mostrar o seu interior.

A silhueta tem como objectivo esconder-nos
Afirmando-nos.
Gosto de silhuetas, porque nos delineiam.
Desenham a forma do nosso corpo
E sublinha-nos a tangente com o fundo que nos tem.

Sinto-me bem silhueta porque mostro-me
sem me mostrar.
E ninguém vê o meu rosto, pele ou cor...
Ninguém me toma pela textura...

A mancha que passamos a ser
Uma vez silhuetas,
Dá-nos o poder de actuar sem expressão descoberta.
Somos alma em forma de forma
Que pode ser projectada como sombra
Ou usada como sombra própria...

A silhueta consegue esconder a lágrima,
Mas transborda expressão corporal.
Mancha a pele, mas afirma a volumetria...
Talvez nos exponha mais, afinal,
Que o nosso corpo em fotografia.

Diana Estêvão

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Tenro amar

Foste em tempos, tenros,
A alma mais absoluta
Que eu julgava existir para mim…

Eras, do nascer ao pôr do Sol,
O rosto que eu vivia,
No horizonte jovem dos meus olhos.

Não acreditaste na certeza que senti
Quando senti o que senti
Ao sentir-te no meu olhar…
Ao tocar-te pura, trémula e original.

Escrevi-te como se fosses
O último homem na terra…
E como se eu, fosse a única poeta
Que melhor declamava o meu amar…
Mas tu!..., eras na altura,
De facto, o único rapaz
Daquele meu terreno lunar…
E fizeste-me sentir a melhor e única
Poeta… daquele terreno à beira-mar…

Todas as horas foram lutas,
Travadas para te conquistar.
À espera que existisse um fim,
Um final feliz, em que,
Por destreza minha te fizesse,
Finalmente!,… Amar-me.

Várias flores nasceram aos meus pés…
Belas e apaixonadas, sem eu as plantar…
Seguiram-me num desenho fiel…
Mas que nunca me conseguiu apaixonar…
Porque a flor que sempre tentei cultivar,
Nunca a consegui ver nascer nem desabrochar.
Por isso nunca me fez feliz um jardim repleto,
Se a única flor que plantei não nasceu…
Deixando o meu jardim incompleto…
E incompleto o desejo de amar…



Insisti em nós, incansavelmente,
Acreditando que poderias vir
A sentir-me como te sentia a ti.

Perdi a noção das cartas e palavras…
Perdi o meu tempo em troca de
Não correspondência.
Chagas no peito, horas amargas…

Quando desisti de te conquistar…
Não te ganhei nenhum sentimento mau,
Perdoei-te por não ser correspondida…
Ficou só o meu desgosto por ti, rapaz…

Nunca tive coragem para jogar contigo...
Nunca consegui usar os meus trunfos
De mulher jovem…
Pequei por não ter sido mais habilidosa…
Mas sou mais envergonhada do que me julgaste.
Mais tímida que…
A desavergonhada que em mim desenhaste…
Se fosse hoje, talvez mais que na altura,
Eu mais hoje tentasse…

Mas não deveremos falar assim do passado…
Só sabe quem já sentiu…
O que é amar e não ser correspondido…
Amar-te e querer-te…
E tu de coração já preenchido…

Acho que nunca mais nos iremos cruzar…
Não daquela forma.
Mas por mais que eu te tenha esquecido…
Ao passar por ti e na tua presença…
Ainda tremo…
O teu rosto ainda me toca com o olhar…
A tua presença ainda me preenche…
A tua existência junto de mim
Ainda me faz suspirar…
Ainda despertas a minha adrenalina…
Eu gostava de ter-te num momento a sós…
Porque hoje somos homem e mulher…
Já não somos menino e menina.

Gostava de conversar…
Olhar…, rir…, observar… sorrir…
Tocar-te na mão, com delicadeza…
Fazer-te um carinho no rosto,
Com leveza… Tudo muito calmo…
Porque parece que ao imaginar…
Volto a ser a mesma menina.
E o medo apodera-se…
Parece que volto a ter a mesma
Ingenuidade genuína…

Vou esperar por esse momento…
Espero não ter medo.
O meu pecado é ter medo.
O medo não deixa o Ser-humano viver…
Não o deixa sentir…
Leva-me a sentir.
Leva-me a querer.

Ofélia Castro

quinta-feira, 26 de maio de 2011

1000

1000 visualizações da página.

E viram algo que vos levasse a reparar?
Reparam em algo que vos fizesse voltar?
Voltaram a ler algo que quisessem seguir?
Seguiram algo que desejaram continuar a acompanhar?

Obrigado por lerem a minha página.
Vou esforçar-me para dar mais de mim.

"Se podes olha, vê. Se podes ver, repara." J. Saramago

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Tal como no Stop motion


O Stop motion é como a vida... E ainda mais como os momentos que temos nela. Juntam-se fotos após fotos, frames sucessivos de sentimentos e matéria que, ao fim de uns milhões de imagens nos permitem ver um filme fluído. E assimilamos muito melhor as coisas que aconteceram quando fazemos o stop motion desses momentos ou mesmo o stop motion da "nossa" vida. Porque na verdade, cada foto, individualmente - por vezes - não nos diz nada. Porque numa foto não vemos a anterior nem a seguinte só vemos aquela. E aquela poderá não dizer tudo.
Engraçado como o stop motion pode ser como os momentos da nossa vida... Que só os interpretamos melhor/bem quando os vemos em sucessão... Aí percebemos muita coisa que não havíamos entendido ou não quisemos dar atenção quando era só uma vez, quando era só um momento... um frame.
A quantidade faz a ideia, a quantidade faz o sentido... e a sucessão faz o raciocínio correcto.
Mas há também a manipulação do real - que é interessante como também se adequa à nossa forma de vida. Neste vídeo tal como na nossa vida, há manipulação de imagens reais, de momentos... E nós manipulamos o real, para que nos pareça à medida das nossas expectativas.
Porque o stop motion não bastou para compreender e agradar, quiseram manipular o existente, adequando às expectativas, desejos e objectivos... e metas. O stop motion faz-nos compreender se não estivermos satisfeitos com o que compreendemos e depreendemos..., faremos então uma manipulação do que temos... para por vezes, nem convivermos com o real que descobrimos...
É assim na nossa vida. Tal como no stop motion.
Criamos histórias.

Diana E. _21 Fev. 2011

Música: Laura Jansen - Single Girls

sábado, 12 de fevereiro de 2011

«Não te negues»

O Sol nascia
E os raios da lembrança
Iluminavam aquele sentimento...
Via-te no horizonte que os meus olhos criavam.
Lembrei a tua presença daquela manhã fazia d'outrora...
Lembrei a nossa dor.
A minha, de gostar de ti...
A tua, de não sentires nada por mim.

Passados anos dessa breve adolescência
Lembro com carinho e nostalgia a minha luta
Pela tua conquista.
A vida não me quis oferecer sequer a tua paixão.
Segui, mas ainda penso muito em ti.
(Não da mesma forma.)
Lembro-me sempre da teoria de alguém
Que um dia disse
Que "A esperança é a ultima a morrer"
E da minha que diz que:
Ela só morre com quem amamos.
E por isso às vezes ainda penso que...
«Bem... Ainda cá estamos...!»

Não sei que me fizeste..., que
Quando te vejo ainda acelero o coração.
Devo sentir vergonha?

Vejo cada vez mais longe qualquer
Possibilidade tosca de alguma vez,
Sequer,
Provar os teus lábios.
Sinto que já não sinto por ti;
Mas sinto que ainda me minto,
Se disser que nada me dizes.

Naquela muralha de pedra clara
Lembro-me de observar-te a voar de bicicleta
Depois da tua doce sinceridade
De me negares... Quando,
Curiosamente,
Todos me queriam
E eu escolhia-te exactamente a ti que nem um desejo sentias...

O sol pôs-se... Viste?
Deliramos. Afinal, não somos assim tão diferentes.
Nem eu tenho tantos defeitos como em tempos desenhaste.
E não pretendo jamais que
Tenhas pena de mim.
No entanto também não te admito
Dúvidas sobre a seriedade do que senti.
Especulações sobre um possível amor de verão
Que esses, como citaste
"(...)Enterram-se na areia da praia"
Nem tão pouco suporto um afastamento
Por desconfiança de nova fraqueza minha.

Algures li que "não se ama o mesmo homem duas vezes".
Por isso só há duas hipóteses...
Ou nunca cheguei a amar-te,
Porque nunca me deste o prazer de o chegar a sentir...
Ou nunca deixei de te amar
O que na verdade me parece improvável.
(Digamos que algo em ti mexe comigo.)
Ou então esta teoria é mentira
E podemos amar quantas vezes quisermos a mesma pessoa.
Ou então "o amor tem razões que a própria razão desconhece".

Ofélia Castro





http://www.youtube.com/watch?v=rBzcOUOY5YY

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Todos os dias me engano...

Saí do trabalho. É noite.

Olhei em frente. Para um lado. Para o outro...
Saí da entrada daquele prédio, belo...
Daquele sítio alto... que outrora, de perto, já viu o mar.
E sem rumo, mas com vontade...
Andei pelas ruas do Rossio...

Todos os dias me engano, todos os dias me traio
Por não usar o que me deram e que nem todos têm,
Por não me deixar apaixonar pelo que amo em segredo
E que sei que todos querem.
E assim, vivo cada dia... Enganada.

Enquanto desço a rua
Começo a cantar, porque o que amamos
Não podemos negar.
As pessoas fintam-se, olham-se...
Re-olham-se, tresolham-se...
E voltam a olhar.
Eu olho... sinto,
Deixo-me apaixonar...
Porque se posso olhar, vejo.
E se posso ver, reparo.
Como me ensinaram num livro.

Caminho; pé na diagonal do outro...
Postura firme, costas direitas...
Penso na próxima rua... E sinto receio.
Abrando. Acobardo, como sempre.

Ouço as vozes trocadas e musicas da rua...
Fecho os olhos.
Continuo de olhos fechados a caminhar...
E descendo a Garrett, recomeço a cantar.

A calçada é inconstante e torna a minha voz
Não tão boa, mas eu canto... para mim.
A vontade cresce e o peito do lado esquerdo
Sente um quente...
E num salto, começo a correr!
Corro pela Do Carmo abaixo...!
Já lá não está o carro verde que de dia nos dá fado.
Enquanto corro, penso de novo no que quero...
E tenho medo de fazê-lo...
Chego ao grande largo...
Atravesso-o num passo apressado...!
Quase que choro de emoção, pela musica que tenho no coração.
E que todos os dias sinto que traio por não a sentir...
Mas hoje vou senti-la e abraça-la..., aquela que amordaço
Entre as cordas vocais.

Corro!
Chego à De S. José...
E lá está ele.
Canta com vontade, não se trai. Abraça a sua paixão.
Todas as noite canta, acompanhado pela sua guitarra.
Deixei-o terminar.
Dirigi-me a ele... com medo.
Frente a frente, disse boa noite.
Perguntei se aceitava que cantasse com ele.
Fez-se rogado...
Disse-lhe que nada pretendia em troca a não ser o seu sim.
E que se ele recebesse dinheiro enquanto eu ali estivesse,
Ficaria contente por ajudá-lo assim...
Aproximei a minha voz do seu ouvido e cantei.
Para que visse que era capaz.
Perguntei-lhe se me deixava cantar Amália...
Ele escutou...
E os meus olhos devem ter feito algo, que ele viu, mas que eu não vi...
Porque ele disse que sim e deixou-me agarrar no seu microfone.
Falei-lhe de uma música que falava de Lisboa...
E começou a tocar na sua companheira...
(...)
Era tarde para amordaçar de novo a voz.
A cobardia lutava com a vontade.
E trémulas as minhas mãos, não pequenas, seguraram firmemente no que
projectaria a minha voz por aquela rua longa...
E cantei...

«Se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai no mar.»

E nesta primeira estrofe,
As gentes de cá e de lá,
Ouviram o que o meu coração tinha a dizer
E que a minha razão quis esconder...

«Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.»

Emocionada sorrio a cantar
Com esta música tão triste.
Porque o fado tem um encanto
Que os que o amam sentem...
E uma felicidade que é escondida
Na sua tristeza tão bela.

A emoção da sua tristeza,
Transbordou pelos meus olhos
E os meus olhos fechados brilharam.

«Se um português marinheiro,
dos sete mares andarilho,
fosse quem sabe o primeiro
a contar-me o que inventasse,
se um olhar de novo brilho
no meu olhar se enlaçasse.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se ao dizer adeus à vida
as aves todas do céu,
me dessem na despedida
o teu olhar derradeiro,
esse olhar que era só teu,
amor que foste o primeiro.»

As gentes de cá e de lá
Reuniram-se à nossa volta
E as minhas cordas vocais vibraram,
A minha voz voou pela calçada portuguesa,
Como uma ave selvagem que é solta da gaiola.
As pessoas escutaram,
cantaram... Sentiram.
E a rua tornou-se pequena e quente.
E terminamos assim:

«Que perfeito coração
morreria no meu peito,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde perfeito
bateu o meu coração.»

E calei a voz.
A guitarra continuou...
O meu coração, sem espaço para bater,
ouviu as palmas... E sem esconder,
Sorri com lágrimas.
Batemos palmas...
As mãos suadas e frias
Devolveram o microfone do Senhor.
Beijei o artista.
Agradeci.
Segui calada,
Com a minha voz de novo cerrada.


segunda-feira, 5 de julho de 2010

Coração de corda

Ontem deixaste a tua marca nos meus lençóis,
E a tua presença ainda actua
Se eu fechar os olhos...
O teu cheiro é a marca que não quero perder,
A imagem gravada do teu olhar
Vai ser a chave que me vai prender.

Às vezes a lágrima sai...
Por ser eu tão feliz às escondidas.
Às vezes a verdade vai...
Por escondermos as nossas vidas...
Às vezes o pano cai.
A nossa mentira
É feita de palavras sentidas.

Se a nossa forma séria de sentir
Faz de mim uma mulher mais mentirosa,
De que vale adorar-te e oprimir?
Se és só sonho cor-de-rosa,
De que me vale amar-te se lhe vou mentir?

Quero fazer-te feliz e sentir que me sorris...
Não quero que te escondas
Cada vez que me sentires...
Não quero que sofras
Cada vez que te pedir para fingires!
Não quero perder-te,
Se um dia fugires.

Gostava de tornar-te realidade
No meu mundo verdadeiro
Gostava de sonhar-te acordada
Sem segredo nem medo...
Amar-te e ser amada.
Sem nenhum ou qualquer receio.
Dar-te a mão sem vergonha.
Abraçar-te e ser abraçada...
Sem ter de procurar um meio;
Deixar transparecer o meu desejo
E não amarrá-lo, como se fosse feio.

Gostava que o meu coração
Batesse por ti a toda a hora
E não apenas quando lhe dou ordem...
Meu coração de corda.



Ofélia Castro

2010

Lágrima

Ela é salgada,
Já não lhe sabia o sabor...
Não por não as verter...
Mas por nenhuma roçar a minha boca.
É um sabor único,
Naquela temperatura tão própria.
É morna e salgada
Quando se entorna.
Cuidadosamente temperada,
A lágrima contém nela
Uma rica mistura de sentires...
Ela cai quando nos rimos,
Quando sentimos tristeza,
Angústia, revolta, raiva...
Quando sentimos emoção,
Comoção...
Ela cai e rola...
Deixando um pouco de si
Por onde passa...
Deixa de existir quando
Já deu tudo o que tinha
Da sua matéria, quando
Seca, por onde se espalha.
É tão rica em sentimentos que
Deixa alguns pelo caminho ao
Largar os olhos molhados e carregados.
E é dos fenómenos mais lindos e
Com finalidade desconhecida;
Ninguém consegue explicar
Porque é necessário na nossa vida...
Mas ocorre em todos os seres humanos...
A lágrima, é portadora de vida.

Diana Marques Estêvão
2010

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Descobrir como é existir, sem existires

Não eras pessoa nem racionalidade
Foste mais que isso, foste sentir!
Foste quem me acompanhou sempre
Desde a minha tenra idade.
E basta-me que tenhas sido
O meu mais fiel amigo
Para que te faça de fiel companheiro,
Meu familiar.
O teu cheiro ainda está na minha memória
Não fosse o olfacto
O responsável pela mais forte das recordações
No humano
E o mais forte sentido em ti,
Pois sabias sempre, e sempre foi até ao fim,
Quando eu entrava em casa
E sem me veres, seguias-me por aí...
Até que o teu nariz se encostasse ao meu corpo.

Sem medo de censuras,
Afirmo sem vergonhas,
Que foste quem mais feliz me fez nesta vida,
Vida minha que ainda é pouca.
Nunca me deste uma desilusão,
Nunca me abandonaste por nenhuma razão
E quando me tinhas, era eu a tua mãe
Porque a família, é quem cuida e dá a mão.

Foi engraçado perceber como és semelhante
A mim, que não sou como tu.
Foi emocionante acompanhar-te nesta viagem
Tão longa para ti e tão curta para mim.
Para mim foste bebé a tua vida toda
Apesar da declarada velhice que tinhas
A partir dos 12 anos.
Para uns foste meu irmão,
Para mim foste, o que mais próximo tive
De filho que nunca dei à luz,
Porque nunca tive filhos
E o instinto já está presente.
Curioso como nos teus últimos anos
Foste tão parecido com o que eras
Quando eras bebé. Afinal tu és,
Tal como nós.

Ver-te sofrer não fazia parte
Dos meus planos, quando toda a vida
Nunca houve sofrimento em ti e,
Como tal, não iria ser no teu fim.

Falo de ti sem lágrimas,
Mas a sós comigo, penso em ti
Com os olhos inchados de verter.
Quando tenho tempo para mim,
Choro tudo aquilo que ainda não chorei
Tudo o que não tive tempo de chorar
Nem quis chorar acompanhada.

Volto, sem vergonha e sem medo, a escrever
Que até hoje não chorei pela perda de ninguém
O que chorei pela tua perda,
Que no senso comum, não és "alguém".

Por te ter, aprendi a saber quem era,
Antes dos 5 anos não me lembro da mim,
Foi como se me tivesses acordado
Da infância em que vivia adormecida.
Por isso, só me lembro de mim, contigo e,
Talvez por isso, me seja tão difícil
Descobrir o que é a minha vida, sem ti.

Nem todos os seres humanos compreendem
O amor que conseguimos ter, a um ser como tu.
Nem todos tiveram a felicidade que tive,
Porque nem todos são dotados das capacidades
Que permitem ao humano, amar todos os seres.
Por isso, nem todos sofrem com estas perdas,
Como eu sofro com a tua.

Para mim és mais que uma memória,
Foste mais que um cão,
És mais que companheiro,
Foste-me mais que fiel,
Foste um ser, mais humano para mim
Que alguns dos meus humanos.



Diana Marques Estêvão

1 de Julho de 2010

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Noite & Dia

A noite é testemunha silenciosa
Dos nossos corpos ligados pela alma.
As ondas que nos vêm,
Sabem que brincamos na praia..
Sabem que corremos, gritamos, gememos
E trememos de receio que elas contem a alguém
Que nos apaixonamos à Lua cheia,
Que nos vê aos abraços cheios e nos dá a luz
Que nos deixa ver os corpos nus na escuridão
Que procuramos..., na nossa noite de paixão.
Na noite que nos escuta,
Não há lugar para farsas...
Podemos falar com gestos...
E os olhares são acompanhados
De amassos generosos.
Quando passo por ti, de dia, sou ar
Que te dá vida.
Sou pássaro que paira no teu coração,
Sou o alimento da tua visão,
Que acalma a tua vontade de me ter, ali...
Somos a farsa mais bela
Que a mentira pode conhecer!
Somos a verdade mais certa
Que o destino poderá vir a traçar.
Somos a mentira mais cega
Que a todos basta, mas que
Ninguém ousa contestar.
Se um dia formos a verdade mais clara
Que o mundo já viu e
Que a ninguém jamais enganara...
Será que a noite quererá continuar
A ser nossa testemunha?
E as ondas? Voltarão a olhar-nos?
A lua cheia, continuará a iluminar-nos?
Nós? Continuaremos a amar-nos?

Ofélia Castro
Junho, 2010

terça-feira, 18 de maio de 2010

Estranha forma de amar

Gostei de ti sem querer.
Apaixonei-me sem me ver.
Desejei-te sem te ter.
Surpreendi-me por te merecer...

Aprendi a gostar
Ainda mais de ti.
Aprendi que não se nega
O que se sente.
A verdade escondida
Temo-la nas nossas mãos
Tremulas, pelo receio de
Virmos a ser descobertos.

Aprendi a não ter quando quero,
Aprendi a esconder o que adoro.
A não ter o que supero...
E não possuir o que conquisto.
A não amar o todo...
Do pouco que já adoro.

Sou um delírio no amor,
Um sopro de emoção.
Uma pincelada de calor...
No frio das pessoas
Por quem passo e que sentem frio.
Tu tinhas frio.
Tinhas fome de amor
E uma brisa de emoção.
Sendo tu tão único, tão bom...
Serei eu capaz de te dar o meu coração?

Aprendi que não devo cobiçar
O que não quero amar...
Mas, e... Se eu amar devagarinho...
À minha maneira de gostar?
E tentar não me aproximar?
Aceitas esta forma de conquistar?
Perdoas-me esta minha
Estranha forma de amar?

Ofélia Castro
2010

domingo, 9 de maio de 2010

Sublime amar

A saudade cegava-me todos o dias.

Desde que partiste que
Não consegui pensar mais.
Por sentir demais,
Por chorar demais.
Por a tua ausência
Se afirmar presente demais.

Chegaste naquele dia,
Por trás de mim,
Tapaste-me os olhos
Com as tuas mãos que
Sei definir sem as ter.
Toquei-lhes sem as ver
E percebi que eras tu
Quem estava atrás de mim!
Virei-me num repente
Que te lançou os meus cabelos
No rosto, aquele que olhei
Com a surpresa de quem
Te ama em segredo e
Não pode dizê-lo a ninguém.
Com os olhos bem abertos
e bastante húmidos, o meu coração
Pulava, quis sair do peito!
Abracei-te, quis lá eu saber
Do que podiam pensar...!
Só quis abraçar-te,
Sentir-te, só te queria amar.
O teu peito faz-me tanta falta,
É nele que me enroscava
Era ele que beijava quando
A nossa paixão nos suava...

O abraço durou...
Mas acordei.
Tive que largar-te.
Não podia ser vista tão emocionada.
Não podia ser sentida tão amada.
Larguei-te a custo e
Disse coisas que não condiziam
Com a nossa avançada intimidade...
Mas eram as palavras que podia dizer
Naquele momento...
Dado que o contexto nos olhava.

Era bom poder beijar-te
Naquele instante de felicidade...
Mas não o podia fazer...
Não devia.
Eu sabia.
Mas a necessidade de te ter
Era demasiado forte
Para eu poder perceber que
Um beijo nosso
Era a nossa morte.

Numa vontade que me matava
Quebrei o nosso zelo!
Tomei-te em desespero.
E retribuíste-me com medo...
Mas logo me afastaste,
Logo me fugiste,
Enquanto não era tarde nem cedo.
Vi-te fechar os olhos...
Tremendo.
Senti o que sentiste
Porque é meu também o teu segredo.



Ofélia Castro
Maio, 2010

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Amar o passado

Queres que eu te sinta
Por inteiro,
Queres que eu te tenha
Como se eu fosse o teu primeiro...
Mas nunca tive ninguém
Que me quisesse assim e que
Na relação tivesse um terceiro.

Negas esse amor não celado...
E mentes-me com uma lágrima escondida...
Um sorriso à mostra de um lado
E uma mentira que me enlaça de todo
Nesta felicidade entristecida.

Não deixaste de pensá-lo
Nem queres em ti provocá-lo
Por gostares de o gostar...
E sem me quereres deixar,
Vais-te enganando nesta nossa
Relação de tentar...

Estou cansado...
Não te posso mais esperar.
Decide quem queres amar.
Decide quem queres sonhar...!
Se ele não é passado...
Eu não quero ser o mal amado
E estou cansado de me magoar.

Não te vou puxar mais...
Queres cair no teu passado..., vai.
Mas se vais, constrói bem esse estrado,
É nele que terás o caminho traçado...
E o Futuro jamais foi passado.

Entretida com a soma
Esqueces a subtracção que me fazes
E divides-te numa toma...
Em que apenas mal me trazes
Por essa multiplicação de fases...


Mateus Marques, Abril de 2010

quarta-feira, 31 de março de 2010

O teu olhar

Olhaste-me com essa força…
Toda essa tua segurança no teu olhar
E não fui capaz de continuar a respirar,
Parei de dançar, parei de pensar…
E ainda mais segura de ti,
Ao me veres parar,
Reforçaste o teu penetrar.

Inspirei dupla e repentinamente… e expirei…,
Num suspiro que se viu…
Matou-me por inteiro aquele teu olhar.
Continuaste a balançar…
Continuaste a dançar
E eu não pude deixar de observar…
E reparar… a tua sensualidade
Enche o meu apreciar.

Guardei a timidez cá no fundo
E deixei-te aproximar…
Pensei em tocar-te, sem te desrespeitar…
Já tão próxima de mim… senti o teu aroma…
E fechando os olhos... imaginei-te na minha boca.
Tocaste-me no ombro, toque leve esse,
Que intenso me tocou profundamente.

Senti a tua respiração…
No canto do meu lábio,
Senti aquele toque tão subtil,
Que perguntei se seria o teu cabelo…
Deixei-te conduzir-me
Naquela dança tão quente…


Com a tua mão nas minhas costas
Arrepiaste-me e…
A outra mão tocou-me nos lábios e
Preparou-os para o beijo desejado.
Encostaste o teu lábio inferior ao meu
Lábio inferior… e mordeste-me…
Cuidadosamente…, carinhosamente…!

Pegaste-me na mão e puxaste-me.
Quiseste privar-nos…
Eu encostei-te a uma parede e, excitada,
Beijei-te o peito… e tu,
Desejada, deste um suspiro de
Mulher amada e agarrámo-nos,
Aceleradas e suadas…

Puxei-te e corremos para a areia.
Olhamo-nos. Desta vez com
A mesma igualdade de segurança.
Beijamo-nos. Desta vez deitadas.
Molhadas… com o sal do mar…
Banhadas pela areia que se agarra
À pele sedenta de paixão…

Consumimo-nos e
Os gemidos não nos deixam
Ouvir a música que toca.
A areia húmida, sinto-a seca
De te sentir assim tão…
Rebolamos na praia escura…
E invertemos colocações...
Sobes para cima de mim...
E dizes-me ao ouvido:
Sentes-me?


Amélia Rosa, 2010

terça-feira, 30 de março de 2010

Ser

Algumas vezes queremos não ir em frente,
Mas o sentimento é tão fluente…
Que desejamos nunca vir a amar…
Mas não se enganem seres de carne fraca!
Somos todos sangue quente,
Somos todos sentidos e respirar,
Somos mais que o que se sente…
Somos forças da natureza que alguém ousou criar.

Somos belos no nosso interior.
Mas estamos constantemente a afirmar o exterior.
Constantemente queremos desajustar o que algo superior
Desenhou ao pormenor com mestria e rigor.

Ansiamos e tornamos utópica a perfeição…
Ridículos seres somos…
Que não compreendemos toda a nossa perfeita perfeição.
Heróis carnífices fomos…
Que não só nos descobrimos,
Como destruímos o que não foi nossa criação.

Mesmo assim…, somos tão fantásticos
Na nossa perfeição tão única…
Este sangue que não nos deixa ser apáticos,
Esta pele! Tecido que envergamos como túnica.
O meu sentimento por nós é de amor/ódio…
Porque: como é que algo tão belo se afirma
Igualmente, tão cruel e, verte sódio...
Em forma de lágrima?


Diana Estêvão, Março 2010

domingo, 21 de março de 2010

Estranha forma de vida

Letra: Amália Rodrigues
Música: Alfredo Marceneiro

Estranha forma de vida

Foi por vontade de Deus
que eu vivo nesta ansiedade.
Que todos os ais são meus,
que é toda a minha saudade.
Foi por vontade de Deus.

Que estranha forma de vida
tem este meu coração:
vives de vida perdida;
Quem lhe daria o condão?
Que estranha forma de vida.

Coração independente,
coração que não comando:
vives perdido entre a gente,
teimosamente sangrando,
coração independente.

Eu não te acompanho mais:
para, deixa de bater.
Se não sabes aonde vais,
porque teimas em correr,
eu não te acompanho mais

Se não sabes onde vais:
para, deixa de bater,
eu não te acompanho mais.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Hoje seria o teu dia.

Abri o armário. Tirei três pratos. Quis pôr a mesa para jantarmos... mas esqueci-me que a mesa ficou maior... Maior com a tua ausência. E mesmo com a permanente dor da tua falta, a inconsciência do teu não estar predominou naquele momento, por eu não me ter habituado ainda ao teu não ser.
Já com os três tabuleiros na mesa, coloquei três pratos, mais os três copos e ainda mais os três guardanapos... e não me lembrei sequer à quarta vez que não te irias sentar ali e comer connosco! A cada uma das terceiras vezes que coloquei as tuas peças, eu não me lembrei que já não és, já não estás! Como não me lembrei?!...
À quinta peça - os talheres - lembrei-me que, por vezes, costumavas colocá-los ao contrário... sabe-se-lá porquê... e com esse pormenor muito teu, lembrei-me que TU já não és um de nós... Aquela primeira, segunda ou terceira pessoa que se senta à mesa connosco. Já cá não estás... E sem saber o que fazer, levei as mãos ao rosto... num acto irreflectido e sentido...
Peguei nos talhares já postos... e no prato e... abri o armário. Pus o prato, abri a gaveta e coloquei os talheres... Tirei-te o guardanapo e não soube onde o por... agarrei no copo e arrumei-o novamente... E sentei-me numa das três cadeiras... Apática. Doeu-me ter que te retirar o lugar. O lugar que já não é teu, mas que fica tão vazio sem ti... eu ainda te sinto aqui... Sinto-te! Tão presente..., tão evidente... Sinto-te meu querido...!
(lágrimas)

Chegaste e sentaste-te, mãe. Não disseste nada. Eu nada te disse. Beijei-te a testa e sentei-me na terceira cadeira, vazia. Deixei a outra do meio ali, na mesma...
Comemos... sem fome. Só com saudade. Faltaste tu, meu querido... Faltaste tu... Desculpa-me... Desculpa-me!... Perdoa-me não ter posto prato para ti..., nem copo... nem talher..., nem guardanapo...
Desculpa não ter posto mesa para ti, meu pai...


Ofélia Castro
19 de Março de 2010

Palavras

Contaste-me palavras prometidas.
Não me as disseste.
Deixaste a imagem no ar.
O ar que inundamos
Com os nossos odores.
Deixaste-me a pensar...
E enquanto nos afundamos
Nos nossos amores,
Disseste-me palavras sentidas.
Palavras que não me as prometeste.
Tentei senti-las...
Mas nunca me as ofereceste.
Tentei ouvi-las...
Mas não as repetiste.
Tentei reproduzi-las...
Mas não as pediste.
Quis traí-las...
E tu sentiste-te.
Quis trazê-las.
E tu vieste comigo.

Ofélia Castro

Partiste?

O barco vai partir
E eu não sei se quero ir...
Contigo.
O mar é rude e longo...
E apesar da sua imensa beleza...
Eu tenho medo.

O barco vai partir...
E eu não sei que fazer...
Perco-o?
Vou?
Espero?
Se espero ele parte.

E tu?
Esperas por mim?
Partes?
Ficas?
Arrependes-te?

O barco vai...
O barco foi...
E tu foste...
Não te censuro.
Era egoísta pedir-te
Para ficares...
Perdi o barco.
O nosso barco.
E a ti?
Perdi-te?
Voltas um dia?

Espero pelo nosso próximo barco?

Não se perde o mesmo barco duas vezes.
Tal como não se ama o mesmo homem duas vezes.

Ofélia Castro, Março 2010

InCertezas

Eu digo que tenho tudo controlado,
Mas eu sou demasiado sentimental.
Este meu lado esquerdo...
Já foi várias vezes machucado.
Várias vezes isto de brincar me correu mal...


Eu digo que cá me arranjo...
Mas só vejo forma de me arranjar um amor...
Quero sair, mas fui eu quem quis entrar...
Fui eu quem deixou isto voar...
Fui eu! Quem quis provar este sabor!
A culpa não foi do cupido mascarado de anjo...


O lado esquerdo chora...
E parece que gosto de viver como poeta...
Que vive a vida na amargura da hora...
Que troca esta acidez tão secreta
Por um poema que fugazmente devora!
É uma dor que demora...
E o meu lado esquerdo chora...


Não sei se te quero,
Ó tu! Que me consomes os pensamentos...
Nem sei se te não quero...
Que isto é um rebanho de sentimentos!
Quanto mais penso mais me perco...!
Neste mar de desejos ardentes...


As incertezas conferem ansiedade à vida.
A ansiedade é filha da adrenalina...
A adrenalina é culpada pela súbita subida
De coragem e desinibição num ser...
Posto isto: que era da vida sem incertezas?
As certezas exterminam um possÍvel acontecer.
A certezas só servem para nos deixar morrer.

Amélia Rosa, Março 2010

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Andar sobre uma linha de papel

Descobrir cada pedaço de ti,
Apaixona-me cada vez mais;
Não é apaixonar-me por ti,
É querer-te em dias banais...
(Será?)
É sentir-te mais que os demais,
É pensar-te mais que outros que tais...
É, apesar de tudo, sentir que
Sobretudo, se eu não sair daqui
Tu também não sais...
Só sei apenas que me perco em ti, demais...
E que me encontro de novo quando voltas e já não vais...

Eu já não sei se te desejo ou quero...
Não percebo se não me esforço ou esmero
Por te encantar, mais do que te encantas,
Se é do teu olhar ou das conversas com que me cantas...
Será que me apaixonei de novo como em outras tantas...?

Ter-te só para mim no nosso momento é tão bom...
Pensar se tens além de mim alguém com quem...
Dá-me que pensar, mas desligo e ligo um som...!
Não quero saber disso, não me sabe bem o tom...

Pensamentos íntimos sem compromisso
Com a realidade, por serem apenas isso...
Sonhos, saudade, vontade, esquisso...
Não tos conto, por serem só meus...
E será mesmo? Ou serão também teus?

Desmanchas-te com uma possibilidade
Que me confunde e enfraquece
E deixas-me sem reacção,
Sem palavras nem capacidade... esquece...
Não brinques com a minha sanidade... isso enfurece.
Não se escreve o que não se promete.

Ofélia Castro, 2010

Lis linda!

Lisboa, que sou tua,
Desde que em ti nasci
E tu, que és minha
Desde que te conheci...
Lisboa! Tão boa
Que nos levas até a ti,
Tu que tens vida própria
E não somente
A nossa vida por si!
Oh Lisboa vida!
Dás-nos a vida
Que tens aí?
Essa luz que tens
Noite e dia?
Essa harmonia que vem
Até aqui?
E dás-me essa voz...?
Essa que trazes a mim?
Lisboa, que és tão grande,
Que ninguém sabe
Onde fica o teu fim.
Leva-me pelas tuas belas
Ruas e becos...
Veste-me com essa paleta,
Conta-me todos os teus segredos...

Diana Estêvão, 2010

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Desejo . . .

Para começar... gosto de saborear...
Como que uma introdução...
Preparar um desenvolvimento...
Sem pensar muito na conclusão
...
Deixar-me no teu pensamento
Sem ocupar espaço no coração.


Então olho-te... e o teu olhar não me mente.
Queres aquilo que eu quero
E o que quero é tão somente:
Seguir pelo teu corpo,
Como se fosses mar...
Devorar as tuas ondas, fazer-te suar...
Comer-te vigorosamente e
Saborear o teu sal...

Quero passar as minhas mãos frias
Pelo teu pescoço e costas quentes.
As minhas mãos vazias,
Desejo enchê-las com o teu corpo... Sentes?...

Quero arrepiar-te essa pele suave
E fazer-te excitar...
Beijtar-te todo num momento
E num instante deixar-te a desejar...

Agora que já provei esses lábios,
Agora que já conheço o vosso sabor,
Quero descobrir melhor a tua pele -
Que não conheço o cheiro nem cor...
Deslizando os meus lábios por ti,
Num misto de intensidade e calor.
...

Desejo lamber-te, arrepiado de prazer
...

E ouvir-te respirar - arfando - cheio de querer...
Sentindo o que sinto, numa vontade imensa
De te comer.

2010

Envolvência

O nosso tempo acabou por hoje
Mas os nossos desejos continuarão,
A acção termina agora, vais pra longe,
Leva o teu coração...
Continua, não olhes para trás,
Sintas o que sentires, vai,
Está na hora de partires...

Deixo-te sem vontade de te largar,
Mas tenho que ser assim, frio,
Para não te convencer a ficar...
Tenho que ser um pouco distante
Para não te conquistar o vazio...

O nosso pecado secreto é maravilhoso
É subtil e desejoso... Dá-me mais de ti...
Dá-me o que queres dar,
Não te prives de ter o que em ti é querer...
Dá-me ar, dá-me ar!
Dá-me mais deste pecado que me mata de prazer...
Faz-me arfar... de tanto te amar...

Sua em cima de mim, geme por mim,
E faz-me este homem completo que vez aqui...
Continua assim... aqui, por mim, por ti...
Conta-me como te sentes, eu gosto de ouvir-te,
Toca-me e envolve-me, eu gosto de sentir-te...
Fala-me de ti, dos teus receios,
Dos teus sonhos, quero saber definir-te...

Mas não me ames com a mente,
Ama-me com o corpo e emoção;
Quem mais se nega mais mente,
E eu não te quero a amar-me com o coração...
Mas posso ser a tua maior paixão...
E deixemos o amor para outra dimensão...
Devora-me com paixão..., só com paixão.


Mateus Marques, 2010

Tentação . . .

Tu. Sim, tu.
Tentação que me tentas
E tentas consumir-me...
Consomes-me nos pensamentos
Nos sonhos, nos movimentos,
Nos segredos meus, teus...
Em todos os momentos
Consomes-me a alma e o corpo
Comes-me a pele, ossos,
Os olhos, o cabelo
A minha imagem de
Alto a baixo
Parando no meio e reinventando
Pelo meu corpo abaixo soando, tu tentação,
Paixão que comes e não entornas,
Tu, que somes e somas
Mais desejos e fomes...
E consomes-me com a tua ausência,
Tendência para a cobiça,
Egoísmo de não querer partilhar
Nem querer deixar.
Partes-me em mil bocados e
Provas, comes, deixas sobras, para ti
Quando voltares.
Deixa-me tentação mas nunca me deixes...
Quero-te mas odeio-te
Deixo-te mas tenho-te.
Desejo-te mas repeli-te...
Tenho-te mas fujo-te...
Volto e como-te tentação,
E deixo-te devorares-me com paixão,
Como um osso se deixar devorar por um cão.
Vai, mas volta,
Vai-te, mas vem-te,
Sai, mas entra-me.

Amélia Rosa, 2010

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Hoje mais do que nunca

Hoje quis-te;
Desejei-te.
E mais uma vez fiquei-me,
Retive-me,
Contive-me,
Olhei-te.
Não te beijei
Nos sítios que quero;
Não te abracei
Da forma que me deu vontade...
Não te tive, mas quis-te...
E hoje...,
Hoje quis-te muito.

OFÉLIA CASTRO, 2010

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

A junção perfeita

Desculpem-me aqueles que não o sentem, mas eu fico louca quando ouço uma boa junção de rock/metal com rap, porque eu gosto mesmo muito de metal e rap... Há quem diga que são opostos, até podem ser, mas eu vejo semelhanças, vejo a mesma revolta em algumas letras- Eu amo os dois estilos.
Esta junção deste artista - BOSS AC - está fabulosa, ainda para mais porque em algumas partes da música (incluindo o início), de fundo, ouvimos um instrumento lindo a soar.
Está uma batida comum, básica, mas simples e a meu ver, boa.
Apreciem os que apreciarem:





Farto De...
Boss AC

Farto de ser artista, fodasse
Farto destas merdas
Farto deles todos
Farto destes cabrões
Farto do Bush
Farto de guerra
Cambada de filhos da puta

Farto de ser culpado sem ter culpa de nada
Ser rejeitado, farto de conversa fiada
Farto deste sistema de merda que nos engole
Farto destes políticos a coçar colhões ao sol
Farto de promessas da treta
Sobem ao poder metem as promessas na gaveta
Farto de ver o país parado como uma lesma
Ver as moscas mudarem e a merda ser a mesma
Farto de os ver saltar quando os barcos naufragam
Quanto mais tiverem melhor, menos impostos pagam
Farto de rir quando me apetece chorar
Farto de comer calado e calado ficar
Farto das notícias na televisão
Farto de guerras, conflitos, fome e destruição
Farto de injustiças, tanta desigualdade
Cegos são os que fingem que não vêem a verdade
E eu tou farto caralho

Injustiça, Guerra, Racismo, Fome, Desemprego, Pobreza
E eu tou farto
Mentiras, Traição, Inveja, Cinismo, Maldade, Tristeza
E eu tou farto
Injustiça, Guerra, Racismo, Fome, Desemprego, Pobreza
E eu tou farto
Mentiras, Traição, Inveja, Cinismo, Maldade, Tristeza
Já chega.

Farto de miséria, o povo na pobreza
Uns deitam a comida fora, outros não a tem á mesa
Farto de rótulos, estigmas e preconceitos
Abrir os olhos e ver não temos os mesmos direitos
Farto de mentiras, farto de tentar acreditar
Farto de esperar sem ver nada a melhorar
Farto de ser a carta fora do baralho
Farto destes cabrões neste sistema do caralho

(Refrão)

Ver roubar o que é nosso, impávido e sereno
Ser acusado de coisas que eu próprio condeno
Farto de ser político quando só quero ser MC
Não te iludas ninguém quer saber de ti
Todos falam da crise mas nem todos a sentem
Muitos com razão, mas muitos deles apenas mentem
Crimes camuflados durante anos a fio
'Tavam lá todos eles mas ninguém viu
Não foi ninguém, ninguém fez nada,
E se por acaso perguntarem ninguém diz nada
Farto de ver intocáveis saírem impunes
Dizem que a justiça é para todos mas muitos são imunes
Dois pesos, duas medidas
Fazem o que fazem, seguem com as suas vidas
Para o povo não há facilidades
E os verdadeiros criminosos do lado errado das grades

(Refrão)

Farto destes filhos da puta,
Farto de cínicos
Farto de guerra
Governos de merda.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Ir.

Leva-me.
Trespassa-me.
Toma-me.
Faz-me acreditar...
Convence-me de que estou viva...
Para eu parar de acordar...
Dá-me a vitalidade da transcendência,
A aventura da tua vivência...
Toca-me.
Embebeda-me de prazer.
Traz-me essa magia,
Esse teu preencher...
A tua euforia,
O teu eterno Ser...
Que eu quero ser.
A normalidade que já não me enche
É a que eu já não quero ter.
Vem buscar-me.
Apanhar-me.
Ir contigo não é morrer.

Ofélia Castro

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Os textos...

Não preciso somente nem demais das minhas experiências para escrever. Quase que só é necessário a minha imaginação... Não fosse ela produto também do que vivo e vejo...!
Não temos que escrever necessariamente o que nos acontece, nem quero isso. Eu escrevo o que me escreve a mente, repleta de surrealidades que umas vezes traduzo, outras nem as filtro, vão assim para o papel, numa sopa de letras lindíssima, a meu gosto - claro.
Quem escreve não tem que justificar-se do que quer que seja... mas eu até gosto, em algumas vezes. Eu gosto do leitor das minhas palavras... Eu amo o leitor. É o que dá vida às minhas palavras. São vós. Vós que lêem isto, sim. Não eu, que só escrevo... eu, por mim só não crio nada... São vocês que avivam as histórias, textos, frases..., vocês, gente que sente as palavras aqui plantadas, com amor.
É também pelo possível leitor que escrevo e não apenas por amar escrever. Que já é muito, sim.
O leitor pode ser 1 ou 300. Nada muda. Se um lê, um sentiu. E um sentimento não é menos que 1.000, só é 1 de 1.000.

Senti necessidade de criar uns pseudónimos... Parecem-me pseudónimos... espero não estar em erro. De qualquer maneira, espero que sejam do agrado daqueles que me dão vida às palavras plantadas.

Acho que não tenho muito mais a dizer... a não ser que o que escrevo, não tem que ser aquilo que vivo... como por exemplo eventuais textos que falem em possíveis traições. São o produto artístico que é belo por ser imaginado, independentemente de ter sido ou não vivido. São palavras criadas por sentimentos sentidos de verdade, mas em possíveis fingidas histórias. Compreendem...? A irrealidade - por vezes - é mais saborosa que a própria realidade.

Um abraço, Diana E.

Amêndoa Amarga

Cansei-me de esperar por ti.
Bebi, bebi, bebi...
E não chegaste.
Deixaste que aparecesse
A desilusão e embriaguez,
Em vez de ti...
Mais uma vez.

Não me tragas mais desculpas.
Não...! Não venhas.
Cansei-me de desesperar.
Vai à merda que te quis
E que quiseste
Em vez de mim!
Que mal te fiz?
Como ficaste assim?!

Pouso o último copo,
Vazio,
E cago para ti...
Se ao menos trouxesses
De novo
O velho que houve em ti!
Levanto-me da cadeira,
Porra...
O corpo pesa-me...
Não tanto como tu
Me pesas no peito.
Merda...
Merda!
Sai daqui, sai de mim!
Deixa-me!...
Vai-te...
Vai-te!

Amélia Rosa (2008/09)

Compatibilidade de sentir

Tens perguntado por mim,
A ti,
Como eu o faço a mim,
Por ti?
Tens pensado em mim,
Tão inapropriadamente
Como eu tenho feito
Sobre ti?
Que faço aqui,
Neste jogo de imaginação?...
Não deveria estar neste lugar!...
Aqui é um local proibido
Este lugar onde te penso...
Ainda bem que não se lêem pensamentos.
Ainda bem que ninguém sabe
Os meus sentimentos...
Ainda bem que ninguém sonha
Que eu sonho contigo,
Ainda bem que ninguém sabe
Que eu te procuro
No silêncio que a noite me traz;
Este delicioso escuro
Que te traz a mim,
A tua presença imaginária,
Na minha vontade primária e
Ordinária
De um ser como eu... digamos...
De Consciência íntima imparável...
De vulnerabilidade emocional elevada...
De sensibilidade sensitiva apurada...
Mas...
De que me vale procurar-te?!, se
Ao acaso de te encontrar
E tu me fitares,
Não poderia eu tocar-te...?
Mesmo que seja mutua a vontade...
A velha culpa abate-me e eu
Prefiro prevenir que não me perdoar.
Mas... Já agora, TU...
Tens pensado em mim?!...
Também me ouves no teu silêncio?
Como eu te ouço... no meu?...
Também me queres?
Diz-me!
Também me sentes...?
Também me sonhas?...
Sonhas-me, mesmo eu
Não te podendo tocar?
Porque não posso.
Não devo...

Ofélia Castro

domingo, 27 de dezembro de 2009

«Tens escrito?»

«Tens escrito?»
Perguntam-me.
E aproveito esta deixa
Para mais um poema...
«Quando o tempo me permite.»
Quando ele me deixa,
eu escrevo.
E quando não deixa?
Eu forço.
Forças a escrita?
Não.
Forço o tempo.
A escrita é sempre
Fluída...
Nada espessa...
Nada forçada...
Nada, nada..., flutua.
Tomara eu ter o tempo
Amplo e fluído
Como a minha escrita,
Que tem mais quantidade
Que o meu tempo.

Ambígua esta última frase, hein?
Ás vezes a ausência do tempo
Dá-me tanta raiva que
Lhe desobedeço e estico-o
À minha maneira.
As palavras não se esticam...
Não se engordam.
Não se forçam.
É feio.
Alimentam-se, sim.
Crescem.
Voam.
Escrevem-se.

Diana Estêvão



Caros leitores: vou fazer uma coisa inédita, que aos olhos de muitos, será uma traição ao meu poema... Como sei que há gente que não grama muito poemas... vou transcrever o meu poema para texto, com leve alteração de pontuação, se necessário...
Aqui vai!

«Tens escrito?» - Perguntam-me. E aproveito esta deixa para mais um poema...
«Quando o tempo me permite.»; Quando ele me deixa, eu escrevo.
E quando não deixa?
Eu forço.
Forças a escrita?
Não. Forço o tempo. A escrita é sempre fluída... Nada espessa..., nada forçada... Nada, nada..., flutua.
Tomara eu ter o tempo amplo e fluído como a minha escrita, que tem mais quantidade que o meu tempo.
Ambígua esta última frase, hein?
Ás vezes a ausência do tempo dá-me tanta raiva que lhe desobedeço e estico-o à minha maneira.
As palavras não se esticam... Não se engordam. Não se forçam. É feio.
Alimentam-se, sim. Crescem. Voam. Escrevem-se.

Diana E.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Entrega à destruição; desistir

Afundo-me na banheira.

A pele descoberta denota as suas rugas.
Esta pele enrugada
Pela vontade de me afundar.
Permanentemente.

Pela minha cara
Escorrem verticalmente
Duas águas distintas.
A da banheira
E a da minha entranha.

Permaneço-me na cova branca
Embebida em líquido transparente.
E julgo-me a entrar
Na caixa de madeira
Que a terra engole lentamente.

Comer já não me alimenta.
Vou degustando palavras,
As minhas. Essas que são
Minhas filhas.

Afundo-me na banheira.

Converso versos e frases
Comigo, que já não me gosto.
Afundo-me na banheira.

Alimentar-me de palavras
Não me permite continuar...
Sinto-me afundar.
Será que quero continuar?

O líquido cobre a face
Por completo
E não me deixa respirar.
Ou sou eu que não quero voltar?

Deixo-me afundar.

As palavras, leva-mas a água.
O vento, já não me leva nada
Nem me trás o que quer que seja.
Deixo-me acobardar.

Corajosamente
Aguento a dor e insisto em ficar.
Adormeço.
Neste sono tão característico.
Deixei de sentir qualquer dor...

Não me voltem a acordar.


Ofélia Castro, Nov. 2009

Repulsar o Desejo

Desenlaças-me a vontade protegida;
A que não demonstrei,
A que guardei
Cuidadosamente escondida.

Ao olhar-te, os teus olhos
Devoram o meu corpo vestido,
Despem-me a alma toda
E descobrem-me o segredo apetecido.

Escondi-me de ti
E o meu corpo não te viu.
Fugi do que senti
Mas o que senti
Dificilmente se encobriu…

As tuas mãos que não me tocam,
Sinto-as a devagar…?
Não são as tuas? São as minhas…
A imaginação insiste em enganar…!

De novo frente ao teu cheiro
Lanço-me e provo-te o sabor,
Trinco-te a alma cheia
E devoro em ti qualquer dor!

Não adianta fugir para o certo
Se o errado não existe.
O desejo ao estar perto
Embebeda o corpo que resiste.

Ofélia Castro

sábado, 24 de outubro de 2009

Compromisso com a fidelidade

Há frases que não podem ser ditas
Nem mesmo quando a noite tudo esconde e
O nosso olhar é nu e o nosso coração quer
E o nosso corpo se calhar já pensou.
Há sentimentos que queremos ignorar
Por nos comprometerem com a traição
Ou por nos darem uma falta de ar
Que nos faz arfar de desejo...
Não poderemos no entanto
Jamais negar, que o pensamento
Aos poucos se desmancha em palavras
E que o que um dia foram olhares,
Amanhã serão as nossas mãos deles escravas.

Ofélia Castro

Adiamento Crónico

Fica para outra altura.
Dizemos com um ar despreocupado...
Fica para outra altura,
Para quando a vontade não tiver lugar ocupado.
Fica para outra altura,
O que há a fazer sempre dura.
Dura?
Dura…
Por isso fica para outra altura.

O tempo cooooooooooooorrrrrrrrrreeeee...
E corre tão rápido, que
Chega a altura
E não houve tempo
Para que na dada altura
Já haja tempo de tratar da
Dura tarefa que dura e dura…
Mas que só dura e é dura
Porque se adia continuamente a altura...

Perdura…
O quê?
A brandura.
Porque a tarefa faz a altura
E não o inverso.
Quando já houver vontade
De fazer o que ainda dura,
O que perdurou, afinal
Já não dura!
Ai que maçadura…!
Agora passou a altura!
Passou?
Não…
Só não quis ser dura,
E dizer-te que sozinho,
O tempo, apenas, não cura…

Diana Estêvão 2009

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Vou contar-te uma História Abstracta

Francamente,
É certo ter calma e
Aprender a esperar
Pela razão polida
Pela experiência de amar.

Certamente,
É franca a forma como te sinto,
E “perdidamente”,
É palavra que utilizo
E com que não te minto
Quando exclamo que te amo,
Neste meu labirinto.

Completamente
Ciente da realidade envolvente,
Sigo cada vez menos preocupada
Com a história que vem à nossa frente.
É simples e agradável apenas pensar,
No barco que agora navega
Neste alto mar.
E não no porto desconhecido
Nem na chegada futura do barco perdido,
Navegado
Sem sentido
E ultrapassado…
Pelo ansioso passado…
Que não leva senão
À ausência de significado…

À que aniquilar pensamentos que roubam
Probabilidades de acontecer
O nunca esperado viver.

À que matar o ladrão de expectativas,
À que deixar de alimentar
As ideias imperativas,
Movidas pelo ciúme que corrói
A alma, o espírito, o ser,
Este nosso bem maior,
Que às vezes dói
E nunca deveria doer…
Porque não mata, mas mói
Às vezes até apodrecer…

Suspiro, respiro,
fundo, bem profundo…
Até acalmar a revolta
Deste meu mundo.
E disfarçar a cicatriz
Que ficou na minha escolta,
Provoca pela Mágoa Imperatriz
Que tocou no meu íntimo e
Mexeu os sentimentos à minha volta…

Não te troco por estas lembranças,
Sim, quero tê-las em conta,
Mas longe das nossas esperanças.

Tudo perde o sentido se não há confiança
Apesar de por vezes não ser isso
E tudo estar escondido atrás da insegurança,
E se tratar apenas
De relembrar o amargo,
De ter medo de voltar
A trincar o mau bocado…

Desculpa se alguma vez
Fui inconveniente,
Desculpa se desconfiei de ti
E de algo tão evidente
Como o teu sentimento
Sincero pela minha pessoa,
Se te fiz ficar triste
Com algo que até te doa…
…Pensar que eu pensei
Assim à toa…

Moscatel,
Stress,
Solúvel,
Carpex,
Literatura de cordel,
Tudo na sopa de mel
Dos nossos momentos,
Tudo junto na prova
Que prova os nossos sentimentos,
Nesta trova sem pele,
Nua de ressentimentos,
Apenas vestida de um sentimento:
Eu por ti,
Tu por mim, um pelo outro,
E percebo por fim,
A força deste sopro
Que te sai nos actos
E não na voz…!
É incrível,
Mas é o som do que sentes
Reflectido apenas a sós.

Já te disse como estou feliz?
Sim, foi forte, inesperado,
Como um triz.
Como o sonho iludido
Que nunca foi alcançado.
Estou feliz, sim,
Desta forma tão estranha a mim.
Mas nada foi desajustado,
Aconteceu… assim…
Que mesmo assim, há muito era esperado.

Diana Estêvão 17 de Setembro de 2007

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Mente, mais que o corpo...

Para quem partilha comigo esta desmultiplicação,
Desabafo-vos em segredo, num segredo partilhado
Que a vontade de criar me morde, me fere
Por tanto querer e tão pouco conseguir acabar...

O tempo não é o que somos
E o que somos jamais teremos tempo de mostrar;
A minha criação interior não pára!
E eu digo-me para parar
Porque eu não tenho tempo de nos mostrar...

Mata-me o sonho de sonhar!
Dói-me a vontade de querer e não poder!
Trespassam-me ideias que não agarro
Pelo tempo que não me resta para as aplicar
E elas passam e deixam ferida em vez de ficar!

Dêem-me tempo! Dêem-me vida! Dêem-me amor!
Que continuarei a criar.
O meu Ser é mais do que a minha carne
E acabo por não me suportar!
Acabo-me em ranço, porque pequei por perdurar!...

Olho para o Sol com os olhos atrás das pálpebras,
A pele sente-se a aquecer,
O vento engana-a e fico ali para o ver boiar no mar,
É aí que arranjo mais saúde mental para mais ideias
E é nos comboios, nas músicas, nos autocarros que projecto
O que a minha mente sã me dá!
Mas...
Para quê?
Não consigo criar... só faço imaginar.
Levarei para o meu caixão as minhas obras
Conceptuais imaginárias...
E apodrecerão com as minhas entranhas.
Venham buscar-mas...! As ideias, claro!
Para definir-me, eu, de uma vez e não levar os meus comigo...
E achar-me no meio da perda.
Depois partirei em paz,
Porque sozinha não serei capaz.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

O brilho intenso que emanas (Poema-prenda de aniversário a alguém querido)

Quem te olha nem sempre te vê
Com essa capa de alegria
Que envergas em ti
Neste Dia, mais um dia,
Ontem, amanhã, dia após dia.
És uma lição para mim,
Por mim falo e,
Julgo que por outros também,
Porque não sou só eu que te vejo, para além
Do brilho intenso que emanas
Mesmo com lágrimas que te escorrem por dentro
E não se vêm do lado de fora,
Esse lado que não chora.
És uma esperança, no olhar dos que olhas e tocas,
És como um
Poema que encanta a alma mais desgraçada
És uma marca na terra,
Mais ainda do que a terra numa marca negra,
És a felicidade numa criança cega,
És um mundo a fazer a translação à volta da paz utópica,
És o tempo a voltar atrás, quando ele não quer voltar mais,
És a libertação do gesto carinhoso condensado da humanidade,
És mais que humana, és um anjo que paira e não pára,
Porque ama.
Corres, segues, pulas, cais, mas não paras,
Pois: "Na natureza nada se cria,
Nada se perde, tudo se transforma",
E tu, lição, inspiração, és matéria que não morre,
És espírito que não torpe, és criança que ri,
Sorriso que não finda…
As palavras que da tua boca saem, nunca amargarão.
E surpresas não chegam, para te saudar,
Amar, ou até mesmo quebrar, pois não há quem te destrua
E quebre esse colorido que espalhas, pois não há gente como tu,
E se houvesse, mesmo podendo,
Não quereriam destruir
O que quer que fosse.
Se eu encontrasse palavras para te louvar, mas és tão grande…
Maior que as palavras, que a minha capacidade de te explicar.

Diana Estêvão, 9 de Dezembro de 2008 (entregue a 10 de Dezembro)

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Tirei-te da minha moldura

Tirei a nossa fotografia da moldura que me deste. A moldura que disseste ser para eu colocar uma fotografia nossa ou do L., se eu quisesse...
Cansei-me de esperar que viesses ao meu quarto ver-nos na moldura. Cansei-me, aliás, de muitas coisas. Às vezes precisamos de concretizar actos físicos para mover decisões dentro de nós; tirar-nos da moldura foi o meu «Adeus» a ti. A nós. E tem sido difícil dizer-te «Adeus». E acho que ainda não o disse com vontade. Vai aos poucos... É que o meu amor não acaba de um ano para o outro, como os que vejo por aí acabar... Julgo que nunca to prometi eternamente, porque sei que o ser humano é imperfeito, mas penso que foi melhor assim e dar-to sempre, que trair-te. Pois, mau, só mesmo prometer e não cumprir. Como fizeste.
A imagem que da moldura tirei, ganhou porém, lugar num dossier que até abro algumas vezes, para tirar de lá coisas... Não sou do tipo de rasgar fotografias e queimas cartas...! Guardo tudo!..., mesmo que a pessoa em questão já não me guarde no coração. Apesar de não serem precisas fotografias para que eu me lembre de ti - o meu amor fá-lo por elas. E agora elas são apenas um pedaço de papel cortante para a minha alegria..., que sangra ao focá-las. Mas eu sei que isto é como todos os amores verdadeiros: o tempo vai curando as feridas.

Tento convencer-me de que não fui eu que te perdi, que foste tu quem me perdeu...
Perdeste-me.
Mas o meu sentido racional explica-me que, só se perde o que se deseja, que quem não quer, nada perde.

Acabei por colocar na moldura a minha fotografia com o L. Assim quando olho sinto-me bem. É alguém que me quer. Andei a adiar a troca porque aquela moldura é complicadíssima de se usar... Tal como a tua pessoa é complicadíssima de se tirar de mim. Mas, se eu não tenho lugar em ti, para quê insistir em fazer-te merecer-me, se não me mereces?
Já pensei em retirar a tua imagem de outros lugares meus, onde te vejo mais vezes que a ti em pessoa.
Não te desejo o que de mal me aconteceu, pelo teu Ser ser tão imaturamente irresponsável neste acordo de sentimentos não cumprido... Mas, sei que inevitavelmente, há a probabilidade de com o tempo passado te lembrares da moldura que me deste e das fotografias que tirámos em tempos e, num velho sentimento de verdadeira saudade quereres ver, finalmente, a nossa fotografia na minha moldura... (...) ...mas aí, já o tempo vai longe e irás perceber (talvez por outros meios) que a moldura se trancou a imagens nossas e aí poderei dizer-te que:
"Não fui eu quem te perdeu."

Diana Estêvão, Setembro de 2009

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Vida p'la Morte e Morte p'la Vida

Atravessem os tempos,
Atravessem as vontades,
Atravessem muralhas,
Morram almas!
Morram corações!
Tragam-nos mais nações!
Mas planetas,
Mais nuvens e Sois,
Plantas e sementes,
Neblinas e gentes,
Micróbios e serpentes,
Mais maçãs e
Pecados originais,
Homens, mulheres e
Animais irracionais!
Morram terras e a Terra,
Nasçam mais estrelas e serras!
Mais de nós, mais dos
Mesmos e dos outros!
Isto durante: mais unidades
E números de série que
Aqueles milénios que criámos...
Gerações! Não de gentes...!
Algo maior: galáxias de existências!
Mais daquilo que não sabemos ser,
Mais daquilo que não sabemos
Nem soubemos ter!
Venham! Oh sim!...
Mais Terras,
Mais humanos!
Mais guerras e planos!
Força!
Venham magmas
E armas,
Matar o que nasceu!
Que somos perfeitos demais
Para existir a mais!
Morramos à fome!
À inveja que nos consome!
E esqueçamo-nos
Desta forma (estúpida),
Que fomos construídos
pelo virtuosismo
de Alguém... Quem?
E lembrem-se:
«Nada cria, nada se destrói, tudo se transforma.»
Pois é então agora!
Venham mais!
Que é hora!



Para acompanhar com (se desejarem): http://www.youtube.com/watch?v=aSmnYTYqh0w&feature=PlayList&p=22EC96A35A1E2513&index=2

Um brinde a uma amizade de uma década!


Encantas o mundo com esse teu sorriso,
que todas as manhãs vestes,
que veste o coração de todos
com uma alegria
de que muitas manhãs já não são capaz.
Mas não é apenas o teu sorriso
que me faz amar-te, tal como outros te adoram...
Apaixonas este e outro mundo
com o teu espírito livre,
que dá asas a quem te sente.
Mas não é apenas essa liberdade que me apaixona,
como o mundo se apaixona por ti.
A tua alegria,
alegra o Sol,
o Mar,
o Vento,
o Tempo... o mundo envolvente...!
Num tempo em que o mundo... deprime.
Mas não é, mais uma vez,
apenas a tua alegria que me alegra e fascina,
como as gentes se alegram ao ver-te passar...
Não são apenas os teus sonhos que me fazem sonhar...
O que me fascina por inteiro, e me leva a permanecer,
é a tua força de viver,
o teu ser singular,
a tua alma poderosa,
que trás do céu a magia que a terra implora...
Na certeza do teu doce olhar.

Diana Estêvão, 2005

Forte Chama Fria

Deitas-me numa confortável cama suspensa
Ao Sol que me ilumina,
Trazes-me encoberta a paz da vida,
Mostras-me essa tua ilusória visão
Através da minha danificada retina
E queres que te dê a mão,
Porque sabes que é longa a subida.

Postos os valores de ferro lá no alto,
Os carinhos de papel pesam e começam a cair!...
Ninguém os agarra porque afinal, são leves em demasia.
Perdem-se pelo asfalto e é vê-los a ir...
Quase a cair no lago das desvontades,
Agora, quem os quis um dia, já não queria...

E traída uma promessa de carinho eterno,
A velha desconfiança por excesso, agora confirma
Que a demasia não cobre uma vida e
Nem aviva a nossa chama
Que afinal numa das metades, é tão fria...

E num último desabafo de esperança e espera
Tiras-me tudo e o resto num gesto!
Revelas a tua real frigidez, que me supera
E eu caio nua da cama que me fizeste!
Sem a tua mão e protecção...
E eu desisto.

O tempo ensinará a amar quem não mereceu o amor.
E no silêncio e na solidão
Todos se lembram de quem realmente os amou.
Jamais o tempo dará a felicidade de ter de novo no coração
O que perdemos em mãos... E como o tempo nunca perdoou
Sei que no silêncio, vais lembrar-te de mim.


Diana Estêvão, 2009

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Comunicado


Ter um blogue é para todos.
O conteúdo moralmente apetecível e de qualidade, já não... Mas não foi só a qualidade ou ausência dela naquilo que faço, que me impediu de ter um, há mais tempo.
Há anos que me disseram para o fazer. (Então, porque não?)
Tive uns textos e umas palavras vagas - outras profundas - num blogue mais leve, o blogue que o "hi5" contém... uns comentários lá... Por fora uns incentivos... O meu orgulho pelo meu produto e o meu receio. Pela qualidade dele ou a simpatia dos que me gostam. E apesar do medo, criei o que alguns conhecidos e amigos me disseram para criar ao longo dos tempos. Se eles querem, eles que são o (possível) público, quem sou eu para não dar de mim o que me querem?

Há um ano criei este blogue, sem ninguém saber. Guardei-o para mim. Em privado, num segredo amado, com a questão ambivalente de colocar o meu blogue público... Mostrar-me assim... tão nua...?
Sinto-me poeta e ninguém me pode dizer que o não sou, se o sinto em mim mais do que a mim.
O poeta que mostra as suas frases a outrem, mostra o seu corpo nu, mostra o seu espírito no seu estado mais puro, mostra as suas fraquezas e as suas emoções.
As suas lágrimas em forma de letras,
cada uma seguida de outra!
Pingando pelo rosto e papel moles,
gota a letra, sem terem forma nem textura,
tão transparentes como o sentir que as revelou...
Mostrarmos o que escrevemos é como quando canto para o público: franzo as sobrancelhas num acto tão naturalmente belo de emoção..., como respirar!
É como um artista que guarda os seus desenhos e as suas telas e esculturas na velha sala escura e um dia aceita mostrá-los numa sala iluminada, tão exposta, tão impura... aceita dar-se, aceita emprestar os seus sentimentos incrustados na matéria que fez aquelas peças, peças que as pessoas observam e tentam adivinhar o significado. Às vezes não sabendo que o significado não é feito de formas identificáveis... de formas fáceis de compreender.

"Será que quero dar-me assim?" Repeti para mim. Afinal, durante aproximadamente um ano. E passou tão rápido que não o soube, a não ser quando o li, aqui algures, neste livro sem capa dura.
É tão curioso, é um misto estafante de querer ter coragem para mostrar e querer esconder!
Serei assim tão forte para mostrar-me a vós, nua?


Fui.

BOSS AC - «Carta ao Pai Natal»

Há uma coisa curiosa que costumo fazer desde que me lembro... Não costumo adorar o autor dos produtos fabulosos que absorvo com os meus sentimentos... gosto e amo, apenas o produto, a arte... será egoísta às vezes quase desprezar o autor da obra...? Também acho que sim. Mas noto mais isso na música... Não gostaria que o fizessem a mim...
Mais uma música dele. Com clip e letra. Há que ler a excelente argumentação e a ausência de hipocrisia nestes poemas...






"Olá Pai Natal
É a primeira vez que escrevo para ti
Venho de Lisboa e o pessoal chama-me AC
Desculpa o atrevimento mas tenho alguns pedidos
Espero que não fiquem nalguma prateleira esquecidos
Como nunca te pedi nada
Peço tudo duma vez e fica a conversa despachada
Talvez aches os pedidos meio extravagantes
Queria que pusesses juízo na cabeça destes governantes
Tira-lhes as armas e a vontade da guerra
É que se não acabamos a pedir-te uma nova Terra
Ao sem-abrigo indigente, dá-lhe uma vida decente
E arranja-lhe trabalho em vez de mais uma sopa quente
E ao pobre coitado, e ao desempregado
Arranja-lhe um emprego em que ele não se sinta explorado
E ao soldado, manda-o de volta para junto da mulher
Acredita que é isso que ele quer
Vai ver África de perto, não vejas pelos jornais
Dá de comer ás crianças ergue escolas e hospitais
Cura as doenças e distribui vacinas
Dá carrinhos aos meninos e bonecas ás meninas
E dá-lhes paz e alegria
Ao idoso sozinho em casa, arranja-lhe boa companhia
Já sei que só ofereces aos meninos bem comportados
Mas alguns portam-se mal e dás condomínios fechados
Jactos privados, carros topo de gama importados
Grandes ordenados, apagas pecados a culpados
Desculpa o pouco entusiasmo, não me leves a mal
Não percebo como é que isto se tornou um feriado comercial
Parece que é desculpa para um ano de costas voltadas
E a única coisa que interessa é se as prendas tão compradas
E quando passa o Natal, dás à sola?
Há quem diga que tu não existes, quem te inventou foi a Coca-Cola
Não te preocupes, que eu não digo a ninguém
Se és Pai Natal é porque és pai de alguém
Para mim Natal é a qualquer hora, basta querer
Gosto de dar e não preciso de pretextos para oferecer
E já agora para acabar, sem querer abusar
Dá-nos Paz e Amor e nem é preciso embrulhar
Muita Felicidade, saúde acima de tudo
Se puderes dá-nos boas notas com pouco estudo
Desculpa o incómodo e continua com as tuas prendas
Feliz Natal para ti e já agora baixa as rendas"

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Breve reflexão sobre hip-hop e "Boss AC com Mariza" - «Alguém me ouviu» (do álbum "Mantem-te firme")

Eu sou das pessoas com o gosto musical mais diversificado que conheço.
Pensei que com o passar dos anos, a minha paixão por Hip-Hop se desvanecesse, como aconteceu com os meus belos 14 e 15 anos. Mas afinal a paixão ficou. Mas não gosto de todo o tipo de Hip-Hop... Quando é do tipo que eu gosto, o meu coração bate mais vezes por minuto, porque o tipo de Hip-Hop com que eu me emociono tem poemas de excelente qualidade e uma música de fundo com a presença de belos instrumentos musicais. Não é que não goste de ouvir aquelas batidas tão características do Hip-Hop..., também gosto. Mas há Hip-Hop e Hip-Hop, para quem souber distinguir... e, há gostos e gostos. E aos 21, 22 e mais adiante, julgo, gosto de ouvir esta música (hip-Hop) com tanta idade (já se aperceberam da idade do Hip-Hop?).
Tenho especial emoção pelos poemas deste Sr. que se segue, que se designa por BOSS AC. E gosto mais de achá-lo poeta e declamador de poemas que cantor... Julgo que ele tem uma voz bonita, forte, mas não canta, ele declama - ao som da música.
Este poeta escreve com as frases exactas os sentimentos mais difíceis de escrever. Gosto muito de lê-lo. E também ouvi-lo. E eu adoro fado... E esta música é... uma emocionante junção...




Boss AC com Mariza - Alguém me ouviu (do álbum "Mantem-te firme")



"Não me resta nada
Sinto não ter forças para lutar
É como morrer de sede no meio do mar e afogar
Sinto-me isolado
Com tanta gente á minha volta
Vocês não ouvem o grito da minha revolta

Choro a rir
Isto é mais forte do que pensei
Por dentro sou um mendigo que aparenta ser um rei
Não sei do que fujo
A esperança pouco me resta
Triste ser tão novo e já achar que a vida não presta

As pernas tremem
O tempo passa
Sinto o cansaço
O vento sopra
Ao espelho vejo o fracasso
O dia amanhece
Algo me diz para ter cuidado
Vagueio sem destino
Nem sei se estou acordado

Sorriso escasseia
Hoje a tristeza é rainha
Não sei se a alma existe
Mas sei que alguém feriu a minha
Às vezes penso se algum dia serei feliz
Enquanto oiço uma voz dentro de mim que me diz

(M) Chorei
(M) Mas não sei se alguém me ouviu
(M) E não sei se quem me viu
(M) Sabe a dor que em mim carrego
(M) E a angústia que se esconde
(M) Vou ser forte e vou-me erguer
(M) Ter coragem de querer
(M) Não ceder nem desistir
(M) Eu prometo
(M) Busquei
(M) Nas palavras o conforto
(M) Dancei no silêncio morto
(M) E o escuro revelou
(M) Que em mim a luz se esconde
(M) Vou ser forte e vou-me erguer
(M) E ter coragem de querer
(M) Não ceder nem desistir
(M) Eu prometo

Não há dia que não pergunto a Deus
Porque nasci?
Eu não pedi
Alguém me diga o que faço aqui
Se dependesse de mim teria ficado aonde estava
Aonde não pensava, não existia, não chorava

Prisioneiro de mim próprio
O meu pior inimigo
Às vezes penso que passo tempo demais comigo
Olho para os lados,
Não vejo ninguém para me ajudar
Um ombro para me apoiar
Um sorriso para me animar

Quem sou eu?
Para onde vou?
De onde vim?
Alguém me diga,
Porque me sinto assim?
Sinto que a culpa é minha mas não sei bem porquê
Sinto lágrimas nos olhos mas ninguém as vê!

Estou farto de mim,
Farto daquilo que sou,
Farto daquilo que penso
Mostrem-me a saída deste abismo imenso
Pergunto-me se algum dia serei feliz
Enquanto oiço uma voz dentro de mim que me diz

(M) Chorei
(M) Mas não sei se alguém me ouviu
(M) E não sei se quem me viu
(M) Sabe a dor que em mim carrego
(M) E a angústia que se esconde
(M) Vou ser forte e vou-me erguer
(M) Ter coragem de querer
(M) Não ceder nem desistir
(M) Eu prometo
(M) Busquei
(M) Nas palavras o conforto
(M) Dancei no silêncio morto
(M) E o escuro revelou
(M) Que em mim a luz se esconde
(M) Vou ser forte e vou-me erguer
(M) E ter coragem de querer
(M) Não ceder nem desistir
(M) Eu prometo"

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Solidariedade, no teu auge

A Solidariedade é... (?)

(Faz desta palavra uma acção)


Não deixes que o alento passe num grito e
Te percas na ausência da tua essência,
Essa substância imaginária
Que te faz ser mais alto!
E voraz! Não com os outros, mas sim,
Voraz com o que te faz esquecer os teus sentidos,
Esses que te dão o poder de ver a alma de todos,
Até a daqueles que parece não a terem
Dentro das suas entranhas espirituais…
Perdoa aqueles que parece no lugar dela
terem algo que não os permite sentir…
Nem sonhar intensamente nem amar…




Dá a mão aos que amam e ama quem não sabe ainda fazê - lo,
Ensina - lhe a caminhar na areia ondulante da tua calma,
Pois de bondade se faz o crescimento interior,
O ódio… esse sentimento menos bonito,
Existe para que o amor se faça notar.
Traz a cada dia teu, meu, nosso, a paixão de cada dia!
Ela transporta camuflado o verbo amar
Guardado pela esperança de na acção se conjugar,
sem que nos apercebamos
Que ele está a chegar,
Naquele momento de sabores vários,
Em que não se distingue o céu do mar e
Que a linha que aparentemente os separa,
É somente a vontade do ser humano de se amparar…
Por não ter a possibilidade de ver pelo infinito além
E assim, é comandado o nosso olhar, mentindo - nos,
Por aquilo que não pode ver.




Todos temos medo de nos perder.
Todos temos medo, ainda mais, de nos achar…
A luta da nossa consciência pelo poder é constante,
Só ela sabe o que teme realmente…
Eu, penso para mim, que será o inconsciente.
Aquele que comanda os movimentos que não controlamos,
Que poderão ser prestáveis ou,
Isentos de atenção ao que rodeia a nossa carne…
Essa, que pensamos ser tudo…
Mas que leva o que mais amamos, por não durar sempre
E de repente te faz pensar se estas a olhar para a carne de todos
E mais importante, para o interior de todos, ou,
Se num acto irreflectido tens ponderado somente a tua pele,
Excluindo da tua preocupação egoísta
Seres carentes de algo ou tudo,
Gente lutadora que sofre para ter o que para ti é nada,
E também, gente carente daquela que parece não possuírem.
Daquela?
Daquela que (quem sabe?),
Poderá estar perdida e necessita d’um pouco da vossa, da tua,
Para construir a sua… A sua…?
Abre o coração, sente os teus olhos, será a sua alma?

2007/08 Por Diana Estêvão

_ Depressão _

Entra-se mais fundo no poço,
Que lentamente nos engole; é mais
Do que ficar triste,
É o desejo de morrer, desaparecer,
É ansiar a morte.
É não ter mais lágrimas para verter,
Estar seco, chorar por dentro,
Apodrecer.
É agonia subtil demorada,
É sentir que se é nada.
É mais que sofrer-se sozinho,
É sentir o corpo ausente,
E sobreviver com o espírito morto,
Fazendo por vezes,
Sofrer os que gostam de nós e nos sentem...
É dor que não se sente,
Vive-se com esse sentimento;
É o consumir das entranhas podres e
Apodrecer a alma,
É ter lágrimas de sangue e esconder a face na máscara;
Percorre-se estradas longas de retrocesso que pára a vida;
O tempo corre morto, a vida, que não o é,
Passa e leva-nos o tempo,
Esse, que nos leva a vida, essa que não a temos;
E nós, levamos a carne que temos vestida,
À morte alucinantemente esperada;
Devolvemos a paz ao espírito
E (alguns dizem...) fazemos crescer a alma.
A depressão não se vê...
A depressão não se sente...
A depressão vive em nós,
Caso um dia, surja a oportunidade de nos vencer.


2003, Diana Estêvão

domingo, 7 de junho de 2009

Fruto proibido

Fixei-me nos teus olhos
E, no fundo do teu olhar vi nascer o mais
Explícito desejo de provares o meu sabor.
E foi nesse momento, que os nossos
Corpos se ligaram num acto, que as nossas
Almas já haviam experimentado... Mas é
Neste momento que a amizade perde um pouco
Da sua força, e a paixão, atinge o auge da
Sua essência.

2004 - Diana Estêvão

Algo escrito num momento da minha vida em que, nutri sentimentos por alguém que me foi muito querido e amigo, mas que eu não deveria ter jamais tocado para além da sua alma.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Sociedade, é cada um de nós.


Quando há indivíduos pouco confiantes em si mesmos, com maus hábitos e influências desde cedo e rara rigidez na convicção com que ensinam - sendo os mesmos, pais de outrem - correm as crianças, filhos desse alguém, o risco de crescer semelhantes, mas com cada vez menos preparação para a realidade ou cada vez mais preparados para a real criminalidade.

A deficiente instrução (alimentada pelos progenitores), a falta de responsabilidade (incitada pelos exemplos... ou falta deles), a carência de respeito (normalizada pelo desprezo dado pelos encarregados de educação ao seu educando), a observação não real nem fiel dos factos importantes ao longo do crescimento da criança (fortalecida pelo esquecimento do particular pormenor de que a "criança", amanhã é um individuo...) e, o trabalho árduo (cansativo, enfadonho até, para alguns) que é dar educação, são consequências e factores cada vez menos toleráveis nas sociedades, para que a vida de todos melhore e haja pacificidade e respeito mutuo.

Infelizmente, os erros básicos e aparentemente inofensivos, de pais para filhos, ao longo da vida de cada família, tornam-se grandes problemas e perguntam-se muitos pais o quê? - "Onde é que nós errámos...?" - com um ar totalmente perdido e inculpável... Erraram muitos, sim, e em muito; lamento dizer-vos.
A velha história de que as criancinhas não podem ser contrariadas, dá bom azo a que elas cresçam achando que não devem de facto sê-lo e quando alguém lhes pede para fazerem algo ou as contraria, é vê-las a matarem os pais, chegarem à escola com armas e matarem os colegas à queima roupa, suicidarem-se, assaltarem, roubarem, etc., etc.... (deixo à mercê da realidade outras mais prováveis coisas), pois não aguentaram a pressão de serem privados da sua vontade ao fim de tanto tempo de lhes ser apoiada a vontade de fazerem o que querem e bem lhes apetece. E se não fizerem isto tudo que foi escrito, fazem outras coisas ou acumulam maus hábitos para continuar a ensinar. E estes que são mal ensinados - um dia pais ou não -, serão indivíduos e antes de serem pais, são ou foram filhos e membros da sociedade! A sociedade que temos.


Diana Estêvão (2008)

terça-feira, 2 de junho de 2009

O segredo explícito de ler poesia



A arte de ler
e gostar de poesia, é
seguir cada estrofe
respeitando apenas e somente
a pontuação.
Não é parar na frase
que não tem ponto
nem ponto e vírgula,
só porque há um parágrafo
que obriga o sensível
a separar-se da linha em que está
e saltar para o próximo corrimão.
E é sem dúvida,
ter também imaginação.


Diana Estêvão (2008)

Angústia Carnal

Esta alegria descontente,

Que invento permanentemente

Para esconder o meu desalento,

Que me abraça solenemente . . .



Indiferente, observo,

Distante, preservo,

O meu olhar discreto,

Apesar do sentimento secreto

Que sobrevive bem forte.



Amanhece, no meu corpo, o que

Escurece a minha mente;

Torna mais fraco o meu corpo quase morto,

E enfraquece quem me sente.





Diana Estêvão (2005)

Musicalidade


Gostas de sabor

Que a pele sedenta bebe,

Água de abundante dor

Que escorre, percorre e segue.


Brilho descontente,

De um olhar profundo,

Toque emergente

No coração do mundo.


Diana Marques Estêvão (2005)

Inalcançável

Ao meu gato, que morreu por volta de 2002

O meu gato faleceu com 6 anos. Enquanto eu dormia, ele na minha cama, de repente, sem motivo aparente, fez-me acordar com os seus miados estranhos... Quando o olhei estava assanhado... com os olhos muito abertos... posteriormente falaram-me em ataque cardíaco; seria então aquilo dor?... Ele mandou-se para o chão e foi direito à parede, desfaleceu, por 2 segundos... levantou-se cambaleando, fui buscá-lo... Peguei-lhe, coloquei-o no colo... Sentei-me na cama e massajei o seu peito enquanto ele revirava os olhos... sentia-se evidentemente mal... E eu não tive para pensar como me sentia... desesperada continuei e julgo que tentei dar-lhe ar... Ele deu um suspiro e pareceu uma pessoa ao fazê-lo. E depois parou.





A última vez que o olhei nos olhos,

a última vez que o tive nos braços,

foi para vê-lo e senti-lo morrer...

Sem que eu nada pudesse fazer.



Diana Estêvão (2003)

sexta-feira, 29 de maio de 2009

O desabrochar da rosa branca

Ela... aproximou-se da velha mulher de rugas postas e fitou as rosas de pela macia que a velha vendia.

Procurou uma que tivesse as pétalas muito juntas, como um canudo enrolado apertado... uma rosa por desabrochar, mas eram as enormes, as vividas, de pétalas oblíquas e horizontais que lhe prendiam os olhos.

Mas ela ia contra a natural atracção e tentava escolher uma das mais bem compostas rosas, da colecção de flores que a velha havia roubado à terra do seu terreno, esta manhã cedo.

A concentração dela, desconcentrou a da velha, que fazia arranjos de flores para vender...

- Bom dia menina, quer ajuda p'ra escolher alguma?

Ao que ela lhe respondeu, com alguma vontade de continuar a escolher por ela própria - Eu quero uma rosa branca..., mas quero uma bem fechadinha, assim, ainda por abrir, 'tá a ver?

A velha olhou-a e leu-a...

- A menina quer uma rosa por abrir? Completamente?

- Quero uma rosa que agora esteja fechada, mas que ao longo destes dias abra muito e as pétalas se alarguem... se afastem umas das outras... 'Tá a perceber?

- Mas... menina... as rosas que aqui tenho ficarão sempre assim como são, quer dizer... elas não vão continuar a abrir agora que aqui estão nem as maiores fecharão... elas foram apanhadas com posições diferentes, propositadamente, para os vários gostos... mas não mudarão mais de forma.

Ela não entende e julgando conseguir explicar-se melhor, sublinha - Sra., eu quero comprar uma rosa fechada, assim como esta aqui, esta mesmo! Mas que depois abra, ao longo dos dias cresça... qual é a melhor destas fechadinhas para isso? Esta que lhe disse ou aquela ali?

- Menina... como quer que uma rosa que foi arrancada da sua raiz rejuvenescedora, cortada a sua vida na terra, separada do seu espaço natural, continue a viver depois de morta?


Diana Estêvão (2008)


quarta-feira, 20 de maio de 2009

A passagem

E o pano lança-se sobre o palco!

Num movimento horizontal e plano...

Avassaladoramente.

A sala fica escura e amplo o silêncio...

Não se ouve aplausos.

Não há murmúrios.

Não há sorrisos.

Nem o silêncio se escuta.



. . .





A sala é toda presenças ausentes,

De seres não seres.

Os cadeirões vermelho sangue

esperam o calor humano que só o sangue permite.

Mas não há vida naquela sala...

O pano está fechado e não há palavras.



. . .



Na ausência de matéria

Escuta-se uma voz profunda que canta...,

Como se outra peça maior continuasse

Enquanto esta se acaba.

Outra voz se ouve... Indignada!

Enfurecida!

Esta última,

Inaudível para nós...

QUEM FECHOU O PANO?

Quem mandou fechar o pano?!

EU NÃO QUERO VER O PANO!

Quero continuar a ver esta peça!...

Por favor..., deixem-me ver o palco,

Abram as cortinas, TODAS!

Eu quero continuar neste salão!...

Eu quero...!

Que me fechou as cortinas...?

Diante do meu olhar atento!... Quem...?

Quem mandou tapar o que eu estava a gostar de ver...

Quem me manda embora, agora...?

É cedo, quero continuar aqui.

Quero ver a peça até ao fim!

A peça não pode acabar tão cedo!

Não pode acabar assim!

Alguém me ouve? ABRAM A CORTINA!

EU ESTOU AQUI!

AQUI!



. . .



Mas ele não sabe que

Para ele é o fim.

Como se explica que é o fim,

A quem não quer o fim?

Tudo tem um fim,

Todos temos um fim.






Diana Estêvão (2008)

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Se desejar, leia o poema com este som, até terminar a leitura:

http://www.youtube.com/watch?v=egweJhjt2So&feature=related


(O poema poderá ser adaptado para teatro, num monólogo ou com um actor activo e outro actor narrativo, com acompanhamento de música de fundo que se impõem, conforme o drama da personagem)



Poesia abstracta de uma mente perturbadamente saudável

Eu

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Desfrutem-se...

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