Ela... aproximou-se da velha mulher de rugas postas e fitou as rosas de pela macia que a velha vendia.
Procurou uma que tivesse as pétalas muito juntas, como um canudo enrolado apertado... uma rosa por desabrochar, mas eram as enormes, as vividas, de pétalas oblíquas e horizontais que lhe prendiam os olhos.
Mas ela ia contra a natural atracção e tentava escolher uma das mais bem compostas rosas, da colecção de flores que a velha havia roubado à terra do seu terreno, esta manhã cedo.
A concentração dela, desconcentrou a da velha, que fazia arranjos de flores para vender...
- Bom dia menina, quer ajuda p'ra escolher alguma?
Ao que ela lhe respondeu, com alguma vontade de continuar a escolher por ela própria - Eu quero uma rosa branca..., mas quero uma bem fechadinha, assim, ainda por abrir, 'tá a ver?
A velha olhou-a e leu-a...
- A menina quer uma rosa por abrir? Completamente?
- Quero uma rosa que agora esteja fechada, mas que ao longo destes dias abra muito e as pétalas se alarguem... se afastem umas das outras... 'Tá a perceber?
- Mas... menina... as rosas que aqui tenho ficarão sempre assim como são, quer dizer... elas não vão continuar a abrir agora que aqui estão nem as maiores fecharão... elas foram apanhadas com posições diferentes, propositadamente, para os vários gostos... mas não mudarão mais de forma.
Ela não entende e julgando conseguir explicar-se melhor, sublinha - Sra., eu quero comprar uma rosa fechada, assim como esta aqui, esta mesmo! Mas que depois abra, ao longo dos dias cresça... qual é a melhor destas fechadinhas para isso? Esta que lhe disse ou aquela ali?
- Menina... como quer que uma rosa que foi arrancada da sua raiz rejuvenescedora, cortada a sua vida na terra, separada do seu espaço natural, continue a viver depois de morta?
Diana Estêvão (2008)
Ninguém é o que faz, apenas, nem ninguém é o que tem - totalmente. Não se conhece um ser, nem que anos de convivência passem; o ser humano está em constante aprendizagem e mutação. A mudança é a única certeza da vida. A morte física é inevitável. Apesar das várias assinaturas, todos os textos são meus.
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sexta-feira, 29 de maio de 2009
quarta-feira, 20 de maio de 2009
A passagem
E o pano lança-se sobre o palco!
Num movimento horizontal e plano...
Avassaladoramente.
A sala fica escura e amplo o silêncio...
Não se ouve aplausos.
Não há murmúrios.
Não há sorrisos.
Nem o silêncio se escuta.
. . .
A sala é toda presenças ausentes,
De seres não seres.
Os cadeirões vermelho sangue
esperam o calor humano que só o sangue permite.
Mas não há vida naquela sala...
O pano está fechado e não há palavras.
. . .
Na ausência de matéria
Escuta-se uma voz profunda que canta...,
Como se outra peça maior continuasse
Enquanto esta se acaba.
Outra voz se ouve... Indignada!
Enfurecida!
Esta última,
Inaudível para nós...
QUEM FECHOU O PANO?
Quem mandou fechar o pano?!
EU NÃO QUERO VER O PANO!
Quero continuar a ver esta peça!...
Por favor..., deixem-me ver o palco,
Abram as cortinas, TODAS!
Eu quero continuar neste salão!...
Eu quero...!
Que me fechou as cortinas...?
Diante do meu olhar atento!... Quem...?
Quem mandou tapar o que eu estava a gostar de ver...
Quem me manda embora, agora...?
É cedo, quero continuar aqui.
Quero ver a peça até ao fim!
A peça não pode acabar tão cedo!
Não pode acabar assim!
Alguém me ouve? ABRAM A CORTINA!
EU ESTOU AQUI!
AQUI!
. . .
Mas ele não sabe que
Para ele é o fim.
Como se explica que é o fim,
A quem não quer o fim?
Tudo tem um fim,
Todos temos um fim.
Diana Estêvão (2008)
__________________________________________________________
Se desejar, leia o poema com este som, até terminar a leitura:
http://www.youtube.com/watch?v=egweJhjt2So&feature=related
(O poema poderá ser adaptado para teatro, num monólogo ou com um actor activo e outro actor narrativo, com acompanhamento de música de fundo que se impõem, conforme o drama da personagem)

Poesia abstracta de uma mente perturbadamente saudável
Num movimento horizontal e plano...
Avassaladoramente.
A sala fica escura e amplo o silêncio...
Não se ouve aplausos.
Não há murmúrios.
Não há sorrisos.
Nem o silêncio se escuta.
. . .
A sala é toda presenças ausentes,
De seres não seres.
Os cadeirões vermelho sangue
esperam o calor humano que só o sangue permite.
Mas não há vida naquela sala...
O pano está fechado e não há palavras.
. . .
Na ausência de matéria
Escuta-se uma voz profunda que canta...,
Como se outra peça maior continuasse
Enquanto esta se acaba.
Outra voz se ouve... Indignada!
Enfurecida!
Esta última,
Inaudível para nós...
QUEM FECHOU O PANO?
Quem mandou fechar o pano?!
EU NÃO QUERO VER O PANO!
Quero continuar a ver esta peça!...
Por favor..., deixem-me ver o palco,
Abram as cortinas, TODAS!
Eu quero continuar neste salão!...
Eu quero...!
Que me fechou as cortinas...?
Diante do meu olhar atento!... Quem...?
Quem mandou tapar o que eu estava a gostar de ver...
Quem me manda embora, agora...?
É cedo, quero continuar aqui.
Quero ver a peça até ao fim!
A peça não pode acabar tão cedo!
Não pode acabar assim!
Alguém me ouve? ABRAM A CORTINA!
EU ESTOU AQUI!
AQUI!
. . .
Mas ele não sabe que
Para ele é o fim.
Como se explica que é o fim,
A quem não quer o fim?
Tudo tem um fim,
Todos temos um fim.
Diana Estêvão (2008)
__________________________________________________________
Se desejar, leia o poema com este som, até terminar a leitura:
http://www.youtube.com/watch?v=egweJhjt2So&feature=related
(O poema poderá ser adaptado para teatro, num monólogo ou com um actor activo e outro actor narrativo, com acompanhamento de música de fundo que se impõem, conforme o drama da personagem)
Poesia abstracta de uma mente perturbadamente saudável
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