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sexta-feira, 29 de maio de 2009

O desabrochar da rosa branca

Ela... aproximou-se da velha mulher de rugas postas e fitou as rosas de pela macia que a velha vendia.

Procurou uma que tivesse as pétalas muito juntas, como um canudo enrolado apertado... uma rosa por desabrochar, mas eram as enormes, as vividas, de pétalas oblíquas e horizontais que lhe prendiam os olhos.

Mas ela ia contra a natural atracção e tentava escolher uma das mais bem compostas rosas, da colecção de flores que a velha havia roubado à terra do seu terreno, esta manhã cedo.

A concentração dela, desconcentrou a da velha, que fazia arranjos de flores para vender...

- Bom dia menina, quer ajuda p'ra escolher alguma?

Ao que ela lhe respondeu, com alguma vontade de continuar a escolher por ela própria - Eu quero uma rosa branca..., mas quero uma bem fechadinha, assim, ainda por abrir, 'tá a ver?

A velha olhou-a e leu-a...

- A menina quer uma rosa por abrir? Completamente?

- Quero uma rosa que agora esteja fechada, mas que ao longo destes dias abra muito e as pétalas se alarguem... se afastem umas das outras... 'Tá a perceber?

- Mas... menina... as rosas que aqui tenho ficarão sempre assim como são, quer dizer... elas não vão continuar a abrir agora que aqui estão nem as maiores fecharão... elas foram apanhadas com posições diferentes, propositadamente, para os vários gostos... mas não mudarão mais de forma.

Ela não entende e julgando conseguir explicar-se melhor, sublinha - Sra., eu quero comprar uma rosa fechada, assim como esta aqui, esta mesmo! Mas que depois abra, ao longo dos dias cresça... qual é a melhor destas fechadinhas para isso? Esta que lhe disse ou aquela ali?

- Menina... como quer que uma rosa que foi arrancada da sua raiz rejuvenescedora, cortada a sua vida na terra, separada do seu espaço natural, continue a viver depois de morta?


Diana Estêvão (2008)


quarta-feira, 20 de maio de 2009

A passagem

E o pano lança-se sobre o palco!

Num movimento horizontal e plano...

Avassaladoramente.

A sala fica escura e amplo o silêncio...

Não se ouve aplausos.

Não há murmúrios.

Não há sorrisos.

Nem o silêncio se escuta.



. . .





A sala é toda presenças ausentes,

De seres não seres.

Os cadeirões vermelho sangue

esperam o calor humano que só o sangue permite.

Mas não há vida naquela sala...

O pano está fechado e não há palavras.



. . .



Na ausência de matéria

Escuta-se uma voz profunda que canta...,

Como se outra peça maior continuasse

Enquanto esta se acaba.

Outra voz se ouve... Indignada!

Enfurecida!

Esta última,

Inaudível para nós...

QUEM FECHOU O PANO?

Quem mandou fechar o pano?!

EU NÃO QUERO VER O PANO!

Quero continuar a ver esta peça!...

Por favor..., deixem-me ver o palco,

Abram as cortinas, TODAS!

Eu quero continuar neste salão!...

Eu quero...!

Que me fechou as cortinas...?

Diante do meu olhar atento!... Quem...?

Quem mandou tapar o que eu estava a gostar de ver...

Quem me manda embora, agora...?

É cedo, quero continuar aqui.

Quero ver a peça até ao fim!

A peça não pode acabar tão cedo!

Não pode acabar assim!

Alguém me ouve? ABRAM A CORTINA!

EU ESTOU AQUI!

AQUI!



. . .



Mas ele não sabe que

Para ele é o fim.

Como se explica que é o fim,

A quem não quer o fim?

Tudo tem um fim,

Todos temos um fim.






Diana Estêvão (2008)

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Se desejar, leia o poema com este som, até terminar a leitura:

http://www.youtube.com/watch?v=egweJhjt2So&feature=related


(O poema poderá ser adaptado para teatro, num monólogo ou com um actor activo e outro actor narrativo, com acompanhamento de música de fundo que se impõem, conforme o drama da personagem)



Poesia abstracta de uma mente perturbadamente saudável

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