Saí do trabalho. É noite.
Olhei em frente. Para um lado. Para o outro...
Saí da entrada daquele prédio, belo...
Daquele sítio alto... que outrora, de perto, já viu o mar.
E sem rumo, mas com vontade...
Andei pelas ruas do Rossio...
Todos os dias me engano, todos os dias me traio
Por não usar o que me deram e que nem todos têm,
Por não me deixar apaixonar pelo que amo em segredo
E que sei que todos querem.
E assim, vivo cada dia... Enganada.
Enquanto desço a rua
Começo a cantar, porque o que amamos
Não podemos negar.
As pessoas fintam-se, olham-se...
Re-olham-se, tresolham-se...
E voltam a olhar.
Eu olho... sinto,
Deixo-me apaixonar...
Porque se posso olhar, vejo.
E se posso ver, reparo.
Como me ensinaram num livro.
Caminho; pé na diagonal do outro...
Postura firme, costas direitas...
Penso na próxima rua... E sinto receio.
Abrando. Acobardo, como sempre.
Ouço as vozes trocadas e musicas da rua...
Fecho os olhos.
Continuo de olhos fechados a caminhar...
E descendo a Garrett, recomeço a cantar.
A calçada é inconstante e torna a minha voz
Não tão boa, mas eu canto... para mim.
A vontade cresce e o peito do lado esquerdo
Sente um quente...
E num salto, começo a correr!
Corro pela Do Carmo abaixo...!
Já lá não está o carro verde que de dia nos dá fado.
Enquanto corro, penso de novo no que quero...
E tenho medo de fazê-lo...
Chego ao grande largo...
Atravesso-o num passo apressado...!
Quase que choro de emoção, pela musica que tenho no coração.
E que todos os dias sinto que traio por não a sentir...
Mas hoje vou senti-la e abraça-la..., aquela que amordaço
Entre as cordas vocais.
Corro!
Chego à De S. José...
E lá está ele.
Canta com vontade, não se trai. Abraça a sua paixão.
Todas as noite canta, acompanhado pela sua guitarra.
Deixei-o terminar.
Dirigi-me a ele... com medo.
Frente a frente, disse boa noite.
Perguntei se aceitava que cantasse com ele.
Fez-se rogado...
Disse-lhe que nada pretendia em troca a não ser o seu sim.
E que se ele recebesse dinheiro enquanto eu ali estivesse,
Ficaria contente por ajudá-lo assim...
Aproximei a minha voz do seu ouvido e cantei.
Para que visse que era capaz.
Perguntei-lhe se me deixava cantar Amália...
Ele escutou...
E os meus olhos devem ter feito algo, que ele viu, mas que eu não vi...
Porque ele disse que sim e deixou-me agarrar no seu microfone.
Falei-lhe de uma música que falava de Lisboa...
E começou a tocar na sua companheira...
(...)
Era tarde para amordaçar de novo a voz.
A cobardia lutava com a vontade.
E trémulas as minhas mãos, não pequenas, seguraram firmemente no que
projectaria a minha voz por aquela rua longa...
E cantei...
«Se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai no mar.»
E nesta primeira estrofe,
As gentes de cá e de lá,
Ouviram o que o meu coração tinha a dizer
E que a minha razão quis esconder...
«Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.»
Emocionada sorrio a cantar
Com esta música tão triste.
Porque o fado tem um encanto
Que os que o amam sentem...
E uma felicidade que é escondida
Na sua tristeza tão bela.
A emoção da sua tristeza,
Transbordou pelos meus olhos
E os meus olhos fechados brilharam.
«Se um português marinheiro,
dos sete mares andarilho,
fosse quem sabe o primeiro
a contar-me o que inventasse,
se um olhar de novo brilho
no meu olhar se enlaçasse.
Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.
Se ao dizer adeus à vida
as aves todas do céu,
me dessem na despedida
o teu olhar derradeiro,
esse olhar que era só teu,
amor que foste o primeiro.»
As gentes de cá e de lá
Reuniram-se à nossa volta
E as minhas cordas vocais vibraram,
A minha voz voou pela calçada portuguesa,
Como uma ave selvagem que é solta da gaiola.
As pessoas escutaram,
cantaram... Sentiram.
E a rua tornou-se pequena e quente.
E terminamos assim:
«Que perfeito coração
morreria no meu peito,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde perfeito
bateu o meu coração.»
E calei a voz.
A guitarra continuou...
O meu coração, sem espaço para bater,
ouviu as palmas... E sem esconder,
Sorri com lágrimas.
Batemos palmas...
As mãos suadas e frias
Devolveram o microfone do Senhor.
Beijei o artista.
Agradeci.
Segui calada,
Com a minha voz de novo cerrada.
Ninguém é o que faz, apenas, nem ninguém é o que tem - totalmente. Não se conhece um ser, nem que anos de convivência passem; o ser humano está em constante aprendizagem e mutação. A mudança é a única certeza da vida. A morte física é inevitável. Apesar das várias assinaturas, todos os textos são meus.
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quinta-feira, 18 de novembro de 2010
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