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sexta-feira, 19 de março de 2010

Hoje seria o teu dia.

Abri o armário. Tirei três pratos. Quis pôr a mesa para jantarmos... mas esqueci-me que a mesa ficou maior... Maior com a tua ausência. E mesmo com a permanente dor da tua falta, a inconsciência do teu não estar predominou naquele momento, por eu não me ter habituado ainda ao teu não ser.
Já com os três tabuleiros na mesa, coloquei três pratos, mais os três copos e ainda mais os três guardanapos... e não me lembrei sequer à quarta vez que não te irias sentar ali e comer connosco! A cada uma das terceiras vezes que coloquei as tuas peças, eu não me lembrei que já não és, já não estás! Como não me lembrei?!...
À quinta peça - os talheres - lembrei-me que, por vezes, costumavas colocá-los ao contrário... sabe-se-lá porquê... e com esse pormenor muito teu, lembrei-me que TU já não és um de nós... Aquela primeira, segunda ou terceira pessoa que se senta à mesa connosco. Já cá não estás... E sem saber o que fazer, levei as mãos ao rosto... num acto irreflectido e sentido...
Peguei nos talhares já postos... e no prato e... abri o armário. Pus o prato, abri a gaveta e coloquei os talheres... Tirei-te o guardanapo e não soube onde o por... agarrei no copo e arrumei-o novamente... E sentei-me numa das três cadeiras... Apática. Doeu-me ter que te retirar o lugar. O lugar que já não é teu, mas que fica tão vazio sem ti... eu ainda te sinto aqui... Sinto-te! Tão presente..., tão evidente... Sinto-te meu querido...!
(lágrimas)

Chegaste e sentaste-te, mãe. Não disseste nada. Eu nada te disse. Beijei-te a testa e sentei-me na terceira cadeira, vazia. Deixei a outra do meio ali, na mesma...
Comemos... sem fome. Só com saudade. Faltaste tu, meu querido... Faltaste tu... Desculpa-me... Desculpa-me!... Perdoa-me não ter posto prato para ti..., nem copo... nem talher..., nem guardanapo...
Desculpa não ter posto mesa para ti, meu pai...


Ofélia Castro
19 de Março de 2010

Palavras

Contaste-me palavras prometidas.
Não me as disseste.
Deixaste a imagem no ar.
O ar que inundamos
Com os nossos odores.
Deixaste-me a pensar...
E enquanto nos afundamos
Nos nossos amores,
Disseste-me palavras sentidas.
Palavras que não me as prometeste.
Tentei senti-las...
Mas nunca me as ofereceste.
Tentei ouvi-las...
Mas não as repetiste.
Tentei reproduzi-las...
Mas não as pediste.
Quis traí-las...
E tu sentiste-te.
Quis trazê-las.
E tu vieste comigo.

Ofélia Castro

Partiste?

O barco vai partir
E eu não sei se quero ir...
Contigo.
O mar é rude e longo...
E apesar da sua imensa beleza...
Eu tenho medo.

O barco vai partir...
E eu não sei que fazer...
Perco-o?
Vou?
Espero?
Se espero ele parte.

E tu?
Esperas por mim?
Partes?
Ficas?
Arrependes-te?

O barco vai...
O barco foi...
E tu foste...
Não te censuro.
Era egoísta pedir-te
Para ficares...
Perdi o barco.
O nosso barco.
E a ti?
Perdi-te?
Voltas um dia?

Espero pelo nosso próximo barco?

Não se perde o mesmo barco duas vezes.
Tal como não se ama o mesmo homem duas vezes.

Ofélia Castro, Março 2010

InCertezas

Eu digo que tenho tudo controlado,
Mas eu sou demasiado sentimental.
Este meu lado esquerdo...
Já foi várias vezes machucado.
Várias vezes isto de brincar me correu mal...


Eu digo que cá me arranjo...
Mas só vejo forma de me arranjar um amor...
Quero sair, mas fui eu quem quis entrar...
Fui eu quem deixou isto voar...
Fui eu! Quem quis provar este sabor!
A culpa não foi do cupido mascarado de anjo...


O lado esquerdo chora...
E parece que gosto de viver como poeta...
Que vive a vida na amargura da hora...
Que troca esta acidez tão secreta
Por um poema que fugazmente devora!
É uma dor que demora...
E o meu lado esquerdo chora...


Não sei se te quero,
Ó tu! Que me consomes os pensamentos...
Nem sei se te não quero...
Que isto é um rebanho de sentimentos!
Quanto mais penso mais me perco...!
Neste mar de desejos ardentes...


As incertezas conferem ansiedade à vida.
A ansiedade é filha da adrenalina...
A adrenalina é culpada pela súbita subida
De coragem e desinibição num ser...
Posto isto: que era da vida sem incertezas?
As certezas exterminam um possÍvel acontecer.
A certezas só servem para nos deixar morrer.

Amélia Rosa, Março 2010

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Desfrutem-se...

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