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quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Entrega à destruição; desistir

Afundo-me na banheira.

A pele descoberta denota as suas rugas.
Esta pele enrugada
Pela vontade de me afundar.
Permanentemente.

Pela minha cara
Escorrem verticalmente
Duas águas distintas.
A da banheira
E a da minha entranha.

Permaneço-me na cova branca
Embebida em líquido transparente.
E julgo-me a entrar
Na caixa de madeira
Que a terra engole lentamente.

Comer já não me alimenta.
Vou degustando palavras,
As minhas. Essas que são
Minhas filhas.

Afundo-me na banheira.

Converso versos e frases
Comigo, que já não me gosto.
Afundo-me na banheira.

Alimentar-me de palavras
Não me permite continuar...
Sinto-me afundar.
Será que quero continuar?

O líquido cobre a face
Por completo
E não me deixa respirar.
Ou sou eu que não quero voltar?

Deixo-me afundar.

As palavras, leva-mas a água.
O vento, já não me leva nada
Nem me trás o que quer que seja.
Deixo-me acobardar.

Corajosamente
Aguento a dor e insisto em ficar.
Adormeço.
Neste sono tão característico.
Deixei de sentir qualquer dor...

Não me voltem a acordar.


Ofélia Castro, Nov. 2009

5 comentários:

  1. Muitas vezes nos "meus momentos", puxo um cigarro e sinto as palavras flutuarem da boca para fora.

    :)

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  2. nao gostei, nao pelos versos que sao lindos, mas pelas palavras que te leva o vento e que sao demasiado tenebrosas, para que eu me ponha a pensar se estaras bem, feliz...gosto muito de ti, dia 18 chego a Portugal quero ver-te.

    Nati×××

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  3. Querida Nati:

    «O poeta é um fingidor.
    Finge tão completamente
    Que chega a fingir que é dor
    A dor que deveras sente.»

    do nosso grande Fernando Pessoa...

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  4. Belo! belo afundar, submergindo em pura e límpida poesia.
    parabéns!

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  5. Curioso. Já me afundei também. Já senti o mesmo. Embora seja um sentimento triste, é mais um dos teus belíssimos jogos de palavras... por isso, parabéns :)

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